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Livros e artigos publicados em 2016 que destaco como mais importantes. Os vieses são minhas limitações de área e tempo. Espero que achem interessante!


Livro do ano (geral): 

Brennan, J. (2016). Against democracy. Princeton University Press.

Jason Brennan tem se destacado nos últimos anos como um filósofo político altamente prolífico, competente e com um olhar aguçado para as polêmicas do momento. Após o sucesso do The Ethics of Voting (2012) e Markets Without Limits (2015), tudo indica que Against Democracy (2016) motivará muitos debates nos próximos anos.

No livro, Brennan lança mão não apenas da filosofia política, mas também de estudos em economia, ciência política e psicologia social para embasar suas críticas à democracia universal de maioria simples — a que todos nós mais estamos acostumados. Brennan defende que uma epistocracia (governo pelo conhecimento) seria uma organização institucional mais adequada para satisfazer o que ele defende como direito a um governo competente.

O livro é interessante tanto para defensores quanto para críticos da democracia. Faz um apanhado das principais defesas da democracia usual e levanta suas críticas ponto a ponto. Não só isso, antecipa algumas críticas que poderiam ser levantadas aos seus próprios argumentos e termina sintetizando diferentes possibilidades de organização institucional que poderiam trazer resultados melhores que a democracia atual. Não bastasse a relevância do tema, o livro sai publicado no ano do Brexit, da eleição de Trump nos EUA e do caos institucional na política brasileira. É o livro do ano.


Artigo do ano (geral):

Kahan, D. M. (2016). The Politically Motivated Reasoning Paradigm, Part 1: What Politically Motivated Reasoning Is and How to Measure It. Emerging Trends in the Social and Behavioral Sciences: An Interdisciplinary, Searchable, and Linkable Resource.

Em um ano caracterizado pela ideia de “pós-verdade“, definida em 2004 por Ralph Keyes, o artigo de Kahan (2016) traz uma enorme contribuição para pensarmos o quanto as ideologias políticas podem turvam nossa capacidade de nos atentarmos aos fatos. Kahan mostra diferentes formas de inferência e de correção de erros cognitivos e mostra claramente como temos uma predisposição à desconsiderar fatos e perguntas diretas conforme eles se encaixam com nossas predisposições político-partidárias. Mas não é como se não pudéssemos fazer nada sobre isso. Nesse quesito, recomendo principalmente o artigo Bolsen, T., Druckman, J. N., & Cook, F. L. (2014). The influence of partisan motivated reasoning on public opinion. Political Behavior, 36(2), 235-262. que mostra como um esforço consciente para se atentar ao que importa e fazer uma avaliação crítica e ponderada das evidências tem um impacto bastante significativo em diminuir os vieses cognitivos trazidos pela política.


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Destaque em História do Pensamento Econômico (Livro):

Faccarello, G., & Kurz, H. D. (Eds.). (2016). Handbook on the History of Economic Analysis. (3 Vols.) Edward Elgar Publishing.

Os editores Gilbert Faccarello e Heinz D. Kurz colocaram seus mais de 40 anos de experiência e pesquisa na área de história econômica para trabalhar em um monumental esforço histórico para compor os três volumes do Handbook on the History of Economic Analysis (2016). Ao invés de uma longa história do pensamento econômico focando em alguma área específica da disciplina — em geral, os argumentos macroeconômicos –, cada volume da History of Economic Analysis fornece um recorte específico para os mais de 300 anos da reflexão sistemática sobre os problemas econômicos.

O Volume I faz um recorte pelos maiores nomes que contribuíram para o pensamento econômico de William Petty (1623) até Paul Krugman (1953). O Volume II faz um recorte por escola de pensamento, com cada capítulo sintetizando o nascimento e desenvolvimento da escola sob análise. Por fim, o Volume III traz uma história de como se desenvolveu o pensamento econômico por área (como econometria, teoria dos jogos, filosofia econômica, etc) e por tema (pobreza, desenvolvimento, dentre outros). Com especialistas do mundo inteiro contribuindo em cada capítulo, o Handbook será uma fonte valiosa tanto para pesquisadores de HPE quanto para os economistas que queiram saber mais da história da sua área ou escola de pensamento. Uma pena que o preço inviabiliza a aquisição dos volumes por pessoas físicas, sendo uma obra voltada para bibliotecas e centros de pesquisa.


Destaque em História do Pensamento Econômico (Artigo):

Duarte, P. G., & Giraud, Y. (2016). The Place Of The History Of Economic Thought In Mainstream Economics, 1991–2011, Viewed Through A Bibliographic Survey. Journal of the History of Economic Thought, 38(4), 431-462.

O artigo que tem como autor principal o brasileiro Pedro Garcia Duarte (USP) traz uma grande contribuição para os pesquisadores jovens e velhos interessados em HPE. Os autores recortam os oito periódicos melhor avaliados da área de Economia e fazem uma análise quantitativa de todos os 196 artigos de HPE que elas publicaram nos últimos 20 anos. A categorização dos artigos e análise quantitativa dos artigos conforme o tipo de argumentação utilizado clarificam os caminhos mais seguros para publicar em HPE. Será que os periódicos voltados para história do pensamento apresentariam uma divisão similar de conteúdos? Espero que no futuro os autores busquem responder também essa pergunta. De toda forma, já considero uma leitura obrigatória para todos os jovens pesquisadores da área.


Destaque 1 em História Econômica (Livro):

Beckert, S., & Rockman, S. (2016). Slavery’s Capitalism: A New History of American Economic Development. University of Pennsylvania Press.

Para quem não está a par do debate, a New History of Capitalism é uma nova leitura sobre o nascimento do capitalismo industrial. Ela surgiu após o acúmulo de diversas novas análises econômicas e históricas robustas trazerem a tona números impressionantes sobre o papel da escravidão negra nos EUA para a emergência do capitalismo, tanto nos EUA quanto no Reino Unido. O compêndio organizado por Beckert e Rockman trazem os principais autores por trás dessa atualização escrevendo sobre seus achados e marcando a ideia da NHC. Inclui-se aqui a autora Caitlin Rosenthal, dessa entrevista que traduzi em 2013. O livro nutre um diálogo com as preocupações recentes de autores brasileiros e internacionais quanto à importância da Segunda Escravidão do Século XIX.

Destaque 2 em História Econômica (Livro):

Palen, M. W. (2016). The ‘Conspiracy’ of Free Trade: The Anglo-American Struggle over Empire and Economic Globalisation, 1846–1896. Cambridge University Press.

O livro The ‘Conspiracy’ of Free Trade (2016) do professor Marc-William Palen (University of Exeter) faz uma importante contribuição à história econômica dos Estados Unidos que transborda para uma contribuição ao entendimento da economia do século XIX em geral. O autor mobiliza fontes originais e um conjunto de estudos contemporâneos para reavaliar o estado do livre mercado e do protecionismo nos EUA e no Reino Unido durante o século XIX. Embora esses países sejam usualmente retratados como mais economicamente abertos, essa posição sempre foi motivo de grande disputa política com grandes setores organizados em prol do protecionismo.

Ao contrário da literatura de baixa qualidade histórica que se disseminou na economia sobre o tema, como os livros de Ha-Joon Chang, o livro de Palen mostra todo o potencial de uma pesquisa rigorosa em história econômica. Novamente, a assim como o livro de Jason Brennan, a contribuição específica deste livro para as pesquisas na área soma-se com a onda protecionista de Trump, Brexit, Polônia, dentre outros, que marcaram 2016.


Destaque 1 em História Econômica (Artigo):

Olmstead, A. L., & Rhode, P. W. (2016). Cotton, Slavery, and the New History of Capitalism.

O artigo de Olmstead e Rhode, embora ainda em fase de working paper, faz um apanhado da atual discussão da NHC, elenca os principais autores, discute alguns problemas que encontraram nos números e fatos históricos e avança na interpretação sobre o problema. Como ambos estão dentro da discussão da NHC, o artigo deve ser publicado no ano que vem e virar uma referência sintética quanto aos principais números e problemas da perspectiva.

Destaque 2 em História Econômica (Artigo):

Dincecco, M., & Onorato, M. G. (2016). Military conflict and the rise of urban Europe. Journal of Economic Growth, 1-24.

Mark Dincecco complementa seu já interessantíssimo currículo no tema do impacto econômico das guerras com este fascinante artigo sobre urbanização e guerra na Europa. O destaque aqui vai para a base de dados criada pelos autores, que mapearam por geolocalização “800 conflitos entre os anos 800 e 1799” para analisar o impacto da ocorrência de guerras sobre os padrões urbanos europeus. Em working paper ainda mais recente, The Economic Legacy of Warfare (2016), esse achado se reforça com um modelo econométrico robusto que leva em conta variáveis adicionais. Leitura mais que recomendada para todos aqueles interessados no tema da urbanização, guerra e mudança social nesse período.


Destaque em Direito e Economia (Livro):

Shaw, W. H. (2016). Utilitarianism and the Ethics of War. Routledge.

Este livro não é propriamente sobre Law and Economics e não aplica o ferramental microeconômico para a análise. Contudo, para discutir a ética da guerra Shaw faz uma sintética e bem fundamentada exposição do utilitarismo. Essa é uma abordagem normativa cara tanto para a welfare economics quanto para a law and economics, por isso o coloco aqui. Com uma exposição clara, erudita e honesta, o autor faz uma grande contribuição para pensarmos o problema da guerra que pode ser interessante para pesquisas futuras em Direito e Economia. Penso que um diálogo próximo e interessante seria possível, por exemplo, com o artigo de Eric Posner (2003), A Theory of the Laws of War. Quem sabe no futuro eu não escreva sobre isso?


Destaque em Direito e Economia (Artigo):

Van Bavel, B. A. S., Ansink, E., & Van Besouw, B. R. A. M. (2016). Understanding the economics of limited access orders: incentives, organizations and the chronology of developments. Journal of Institutional Economics, 1-23.

A análise das instituições (dentre elas a lei) é fundamental para entender o problema da relação entre economia e violência. O artigo de Van Bavel et al. traz uma importante contribuição nesse sentido. Os autores refinam teoricamente a contribuição de North & Weingast, Violence and social orders (2009), um livro fundamental para quem queira estudar o objeto da violência. Essa discussão dos autores foi mais divulgada pelo posterior e mais conhecido trabalho que a tem como referência, Why Nations Fail (2012) — disponível também em português.


 

Espero que tenham achado interessante minha seleção de livros e artigos de 2016. E você, o que achou? Teria algo para me recomendar? Sinta-se à vontade para deixe sugestões nos comentários!

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Tenho 27 anos, possuo Mestrado e Graduação em Economia e sou doutorando em Economia pela Unicamp. Trabalho como professor e assistente de coordenação na Especialização em Direito e Economia (Law & Economics), também na Unicamp. Meu objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

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