List

A questão do ENEM sobre a globalização está equivocada. Diversas pessoas já postaram críticas à questão, mas a meu ver nenhuma delas tocou nos pontos que de fato estão errados. Afirmam que a questão é ideológica, mas deixam passar o erro gigante e estritamente científico cometido por ela. Para dar exemplos das críticas erradas que mais repercutiram até o momento, há uma na sessão de blogs da Veja ou no portal Mercado Popular. Este último inclusive fez um abaixo-assinado mal escrito pedindo a anulação da questão.

Para quem não viu, a questão é esta:
globalizacao enem milton santos erro

O que tanto a Veja quanto o Mercado Popular criticam na questão seriam os efeitos da globalização no crescimento da prosperidade, usando para isso citações de economistas de Adam Smith à Mankiw. O que por si só já invalida parte da crítica (embora não toda), pois vale lembrar que economia não é ensinada antes do ensino superior. Logo, o jeito correto de lidar com a questão é usando conhecimentos das humanidades que os estudantes de ensino médio de fato tem acesso, como geografia e história, e não Mankiw.

O Primeiro Erro da Questão sobre Globalização: os limites geográficos

O erro da questão do ponto de vista da geografia (área em que Milton Santos é uma autoridade internacional, vale lembrar) é não ter especificado em que país ou região é a base para medirmos o impacto da globalização no desemprego. O impacto da globalização no emprego dos Estados Unidos e do Japão é uma coisa, na Coréia do Sul e China será outra completamente diferente.

Essa delimitação é imprescindível ao falarmos de desemprego pois é fato científico que ainda não existe método confiável e consensualmente aceito de agregar uma taxa mundial de desemprego. O Banco Mundial a partir do método da Organização Internacional do Trabalho fornece uma estatística sobre isso a partir de 1990, mas não é um número nada comum para se usar em trabalhos acadêmicos. Via de regra a taxa de desemprego é uma taxa no máximo nacional. Isso ocorre devido à diversas limitações práticas.

Primeiro, ainda não é aplicada uma metodologia mundial unificada para o cálculo de taxas de desemprego. Agregar as taxas nacionais daria um número inconsistente e de pouca utilidade para a maior parte dos efeitos teóricos e práticos. Se devido a um efeito qualquer um punhado de países perderem juntos 10 milhões de empregos e do outro lado do mundo gerarem-se 10 milhões de empregos, a “taxa mundial” não nos relevaria nada sobre isso. É um daqueles casos em que a média distorce mais do que esclarece.

Segundo, diferentes países tem instituições de medição estatística com diferentes abrangências. É tranquilo falarmos de taxa de desemprego no Brasil, EUA, Europa, Austrália, Japão. Já para países como Índia, Bangladesh, e diversos países do continente africano a situação é outra. Mesmo na América Latina a maior parte dos países não tem nenhuma organização de dados próxima de um IBGE. “Só” isso já basta para termos ausência de dados confiáveis para a situação de desemprego de +/- 2 bilhões de pessoas. Depois temos outros problemas, como a possível inclusão de subempregos de péssima qualidade como desemprego segundo os critérios de países desenvolvidos, método que se generalizado para diversos países subdesenvolvidos faria a taxa de desemprego passar dos 30%.

Ou seja, especialmente por ser uma questão de geografia, era obrigatório ter especificado para qual país ou conjunto de países a análise da globalização está se dirigindo. Com o global sourcing, fenômeno que se iniciou nos anos 70 e que faz parte junto com outros do conjunto difuso a que denominamos globalização, evidenciou-se em diversos países desenvolvidos um aumento da taxa de desemprego, pois as indústrias reorganizaram sua cadeia de valor de modo que os trabalhos de menor qualificação técnica aproveitassem os salários baixos dos trabalhadores na Ásia (Japão não incluso). A Ásia será cada vez mais importante no século XXI, esse viés de olhar tudo implicitamente pela ótica da Europa e dos EUA está com os dias contados. Seguem alguns exemplos, que nos levarão também ao erro número dois da questão:

Japão (duas ondas de aumento da taxa de desemprego 1970-1985 e 1992-2000):

source: tradingeconomics.com

EUA (patamares mais elevados da taxa de desemprego entre 1970 e 1988):

source: tradingeconomics.com

Reino Unido (patamares mais elevados da taxa de desemprego entre 1975 e 1988):

source: tradingeconomics.com

Apenas a título de comparação, podemos ver como para o Taiwan a “taxa de desemprego elevada” foi de no máximo 3% até chegar o impacto da crise asiática de 1997:

source: tradingeconomics.com

Ou seja, tratando a questão com o rigor acadêmico devido, apenas devido a esse erro os alunos não teriam condições de julgar a validade ou invalidade também dos seguintes argumentos dos itens disponíveis para a escolha:

“Ampliação da legislação trabalhista”: é muito provável que metade dos países do mundo em 1970 não tivessem qualquer legislação trabalhista. E de lá para cá sem dúvida cresceu o número de países com tal legislação. O que caiu foi a abrangência e profundidade de alguns direitos trabalhistas em um seleto grupo de países, em sua maioria países desenvolvidos. No Brasil em particular, a Constituição de 1988 foi na contramão dos EUA e da Europa, ampliando direitos importantíssimos para a população, como o direito à saúde e a formalização do Sistema Único de Saúde (SUS).
“Diminuição dos investimentos industriais”: de novo, diminuição em que lugar? Na Europa e EUA diminuiu em termos relativos (em termos absolutos será difícil encontrar algum caso), porém de uma perspectiva global isso foi mais que compensado pelo aumento do investimento industrial na China e outros países. Até o Brasil teve seu pico de investimento industrial justamente no início dos anos 70, coincidindo com o ‘início’ da globalização (embora nesse caso a coincidência temporal seja falaciosa. “Correlação não implica causalidade”, ensinamento fundamental de estatística).

O Segundo Erro da Questão sobre Globalização: a imprecisão no tempo histórico

Se de um lado a questão erra em algo básico como a delimitação de fronteiras na hora de estudar geografia e demografia, de outro a questão também erra ao não ser clara sobre qual é o período histórico de fato em análise. É difícil achar um consenso na literatura sobre globalização quanto à sua origem exata, embora para efeitos de simplificação poderíamos dizer que 1970 seria a data mais aceita. Bom, se tomarmos o “No final do século XX” do trecho citado de Milton Santos como o período 1970-2000, ainda assim temos 30 anos de surtos de crise e crescimento econômico em uma área geográfica não delimitada para confundir a cabeça na hora de analisar qualquer variável.

Como podemos ver nos gráficos que coloquei anteriormente, as oscilações na taxa de desemprego não são exatamente simultâneas para todos os países. A exceção seria talvez o breve intervalo 1979-1981, quando o aumento da taxa de juros americana em 8,8 pontos percentuais em menos de 2 anos provocou de fato um aumento na taxa de desemprego em um conjunto muito grande de países. Mas o efeito dessa ação específica no tempo variou muito para cada país. No Brasil, cujos ditadores ficaram pegando empréstimos externos por quase 20 anos, o choque dos juros multiplicou a dívida externa, faliu o governo e levou à famosa “década perdida”. Já nos chamados “tigres asiáticos” este choque foi bem menos marcante. A Crise Asiática de 1997 foi muito pior, mas aí já mudamos novamente o horizonte temporal.

Enfim, não quero discutir picuinhas. O ponto é que a globalização é um fenômeno histórico de médio-longo prazo, o que em termos históricos seria de 50 a 100 anos. Não bastasse a questão não definir os limites geográficos, ela tampouco é clara quanto a qual período desse intervalo de 30 anos está se referindo. Até o tal Mercado Popular na hora de criticar só fez menção a dados pós-1990, como se a globalização tivesse começado ali. Em alguns sentidos ela se intensificou após 1990, mas certamente é um fenômeno de pelo menos 1970, e um conjunto não-pequeno de autores defendem com certa razão que pós-1945 seria adequado.

Enfim, definir o horizonte temporal é muito importante. A situação pioraria muito se deixássemos de usar apenas geografia e historia. Se fôssemos entrar em questões de economia, quanto maior o horizonte de tempo em análise mais difícil é evitar dividir o impacto de qualquer coisa em curto/médio/longo prazos, e a globalização não é exceção. Tecnologias que poupam mão de obra geram desemprego no curto prazo, mas seu impacto no médio e longo prazo é bem mais difícil de precisar. Ou como em 1848 já dizia o economista liberal britânico John Stuart Mill em seu Principles, “É de duvidar que todas as invenções mecânicas até agora introduzidas aliviaram a labuta diária de algum ser humano.”

Nesse quadro de imprecisões, sem definir tempo e espaço, conseguimos julgar de forma não-ambígua apenas sobre fenômenos muito estruturais e gerais, em sua maior parte advindos de determinantes tecnológicos. Nas questões, algumas alternativas fazem menção a eles:

a) Eliminação das vantagens locacionais (aumentam-se as vantagens locacionais);
b) Limitação dos fluxos logísticos (aumentam-se os fluxos); b) fortalecimento de associações sindicais (associações sindicais perdem força na vasta maioria dos países até o “fim do século XX”, embora de lá para cá elas estejam se fortalecendo na Ásia);
c) Desvalorização dos postos qualificados (houve valorização dos postos qualificados na maioria dos países, e desvalorização dos postos não-qualificados na maioria dos países desenvolvidos. Ver gráfico abaixo sobre o crescente desnível entre produtividade do trabalhador industrial americano e seus salários reais de 1970 em diante. Mas vale lembrar que não dá para pular desse gráfico para qualquer análise sobre a taxa de desemprego, são variáveis muito distintas.);
Estados Unidos Produtividade salarios desnivel blog thomas conti
d) Concentração das áreas manufatureiras (fenômeno que vem desde o século XVIII e é intensificado com a globalização); d) Redução da jornada semanal (depois de chegar nas 8 horas/dia a jornada de trabalho não se reduziu em praticamente nenhum lugar do mundo, pelo contrário. Apenas recentemente nos países mais desenvolvidos do mundo tem-se proposto e em vias de aprovar uma redução da jornada para seis horas (Dinamarca));
e) Automatização dos processos fabris (também um fenômeno antigo, mas que se intensifica com a informatização e divisão internacional do trabalho vindas com a globalização).

Da perspectiva do horizonte temporal, a questão do emprego é também mal formulada, mas talvez um pouco menos. Embora no médio e longo prazo ocorreram movimentos fortes de redução do desemprego em diversos países importantes, em geral nos países desenvolvidos após 1970 nunca mais se verificaram taxas de desemprego oscilando entre 1% e 3% como no período 1945-1970.

Conclusão

Enfim, concluindo a análise, a questão falha em não deixar claro nem o espaço, conceito principal da Geografia, nem o tempo, conceito principal da História, em que os alunos deveriam balizar a análise do impacto da globalização. Acredito que a maior parte dos alunos tenha “acertado”, mas não por mérito do formulador da questão. Por eliminação a alternativa (E) ainda seria a “menos errada”. Na prática, é provável que os alunos tenham estudado o impacto da globalização a partir do ponto de vista brasileiro, com ênfase no caos da década perdida e do desemprego a 12% dos anos 90 (que eram a preocupação principal do livro do Milton Santos citado), ou do ponto de vista Europeu (ruptura de sindicatos, perda de empregos industriais de baixa qualificação, etc).

Nossos modelos mentais assim como nossa tradição de pensamento estão pouco acostumados a tratar fenômenos globais como realmente globais, e essa limitação mental lamentavelmente acabou ficando implícita tanto na questão quanto na resposta do ENEM… Um questão de geografia e história que não define precisamente nem espaço nem tempo.

Acredito sim que há motivos suficientes para anular a questão, mas não subscrevo ao abaixo-assinado que está circulando por avaliar sua justificativa fraca e incompatível com a grade curricular dos alunos de ensino médio. Pedir a anulação de uma questão é algo seríssimo, e a meu ver a única justificativa forte o suficiente para este caso seria por ser uma questão de geografia que não diz qual o espaço geográfico sob análise, comprometendo a conclusão sobre o desemprego e outros dois pontos que mencionei aqui.

mapa mundial centro periferia semiperiferia questao enem

Thomas Victor Conti tem 27 anos, possui Mestrado e Graduação em Economia, é doutorando em Economia pela Unicamp. Trabalha como professor e assistente de coordenação na Especialização em Law & Economics da Unicamp. Meu objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

9 Responses to “Globalização e Desemprego no ENEM – o erro é pior e não está onde dizem”

  1. Melanie Fernandes

    Olá,acho que tenho um contraponto pra você!
    http://www.theguardian.com/business/2015/aug/17/technology-created-more-jobs-than-destroyed-140-years-data-census?CMP=share_btn_fb

    • Thomas Conti

      Olá Melanie, muito interessante a notícia, mas ela não é contraponto algum, muito pelo contrário. Já a conhecia e ela mostra precisamente a importância de definir o horizonte temporal e espacial na análise de causa-efeito na área de humanas. No texto mencionei como é diferente falar sobre mudanças na taxa de desemprego no curto, médio e longo prazo. Essa análise que o The Guardian traz cairia na definição de Longo Prazo na história econômica (100 anos ou mais). Se tomarmos a interpretação usual do início da globalização em 1970, sequer poderíamos dar início a uma abordagem não-especulativa sobre o impacto dela no desemprego, já que ainda faltam 55 anos para completar os primeiros 100 anos. Teríamos que mudar a definição de globalização, mudar o horizonte temporal e escala geográfica para tomar o início da globalização em 1875 (por exemplo, o interior da China e da Índia, o Afeganistão, as regiões mais longes do litoral da África estariam todas fora da definição de “sistema econômico global” de 1875, pois eram praticamente inacessíveis e estavam à margem da economia de mercado).

      Dito isso, nada impede que no curto prazo ou no médio prazo possa haver um aumento do chamado “desemprego friccional”, decorrente de ajustes tecnológicos e no mercado de trabalho. Quanto maior o horizonte temporal, menos essas oscilações temporárias importam para o quadro geral. Enfim, a meu ver a notícia que você compartilhou é importante e muito interessante, mas antes fortalece o meu argumento da importância de definir os horizontes espaciais e temporais do que o contrário.

      • Melanie Fernandes

        Verdade! Falei em delimitação de tempo e desconsiderei que você fez a sua delimitação com uma parcela menor em relação a fonte que citei!

  2. Arão Alves

    A questão é de Geografia e afere o conhecimento do aluno acerca do pensamento teórico do Milton Santos. Se o aluno não conhece a discussão acerca da Globalização feita pelo autor em sua tríplice análise, fica difícil entender a questão. A palavra chave é “perversa”. A questão é perfeita e extremamente inteligente (elogios à banca). “A globalização como fábula, perversidade e como possibilidade” (Milton Santos). Quem não aprendeu geografia e interpretação no ensino médio não acerta a questão. O maior índice de erro nesse tipo de questão é quando o candidato esquece o texto base e o enunciado usa suas convicções pretéritas. Sai da prova com a certeza de que acertou o Item e o gabarito traz uma grande decepção.

    • Thomas Conti

      Olá Arão Alves, obrigado pelo comentário. O problema persiste. O texto citado do Milton Santos, “Por uma outra globalização”, é uma obra que está explicitamente preocupada com a situação do Brasil e da América Latina no contexto da globalização. O autor analisa com maior ênfase os anos 80 e 90, onde houve grande aumento do desemprego na região. Porém, na questão do texto não delimitaram “América Latina” para avaliarem o impacto da globalização, nem explicitaram “Com base na obra de Milton Santos, podemos afirmar que a globalização…”, o que torna o enunciado impreciso e equivocado mesmo diante da citação do autor.

  3. Alisson

    “O que por si só já invalida parte da crítica (embora não toda), pois vale lembrar que economia não é ensinada antes do ensino superior”

    Isso não faz qualquer sentido, não se pode cobrar um fato errado e tratá-lo como correto apenas porque não se ensina economia. Praticamente toda a evidência empírica existente aponta para o fato de que a globalização, na média, não aumenta o desemprego. O fato de o aluno do ensino médio não ser exposto a isso é totalmente irrelevante, a questão continua sendo errada é precisa ser anulada.

    • Thomas Conti

      Olá Alison, obrigado pela crítica, mas por favor leia o artigo inteiro. Eu disse que invalida parte da crítica e não toda. Embora as pessoas possam acessar conhecimentos de economia antes do ensino superior, ainda assim não existe uma grade curricular de ensino médio para determinar o que seria o mínimo necessário de economia para se aprender antes de um ENEM ou Fuvest. No estudo da globalização por exemplo, não faz parte do currículo do ensino médio falar sobre os determinantes financeiros e monetários da globalização, matéria que é importantíssima para uma compreensão abrangente do fenômeno mas que é simplesmente deixada de fora pois é principalmente de responsabilidade dos economistas estudar e ensinar.

      Dito isso, acredito sim que a questão possa ser debatida e anulada. Só não acho que utilizar de conhecimentos muito especializados de economia, como o livro do Mankiw citado na petição do Mercado Popular, seria aceito numa eventual audiência pública para debater a anulação. Podemos é claro usar citações assim para debater entre nós economistas e buscar uma compreensão melhor do fenômeno entre nós e a sociedade em geral, mas para pedir uma anulação creio que muito provavelmente seria considerada evidência inválida.

      Para citar um exemplo mais drástico, quase tudo que se ensina no Ensino Médio de química e biologia molecular é conhecimento ultrapassado e muito pouco compatível com os manuais universitários mais modernos destas disciplinas. Quem entra nesses cursos no ensino superior tem que praticamente desaprender o que sabe e reaprender tudo do zero. Nem por isso podemos pedir para anular todas as questões de química e biologia, pois temos que avaliar conforme a ótica simplificada sob a qual o assunto é passado aos alunos.

      No caso dessa questão do ENEM, acho sim que ela poderia ser anulada, mas não pelas contribuições que só pela ótica estrita da Ciência Econômica mais moderna conseguiríamos demonstrar. A questão já está errada do ponto de vista da geografia e da história convencionalmente ensinadas no ensino médio e acredito que a discussão teria que caminhar por aí caso seja desejável uma possível anulação.

  4. José Marcos

    Olá Thomas Conti. Antes de mais nada, parabéns pela sua interessantíssima análise sobre a globalização. Em minha opinião, essa questão do ENEM é, essencialmente, um problema de interpretação das ideias expostas por Milton Santos no texto de abertura da questão. No enunciado, indaga-se acerca de “uma consequência para o setor produtivo e outra para o mundo do trabalho advindas das transformações citadas no texto”. Em primeiro lugar, observe o uso da palavra transformação no plural: “transformações”. Se a questão versasse exclusivamente sobre globalização, não haveria necessidade de usar essa palavra no plural. Ao lermos o trecho de Milton Santos, verificamos que ele descreve a introdução de uma técnica avançada informacional em âmbito planetário, no final do século XX, que acarretaria uma globalização perversa nos mercados em que ela fosse introduzida. O comando da questão pede ao candidato para encontrar o item que descreve um impacto no setor produtivo dessa técnica avançada e uma consequência perversa dela. A automatização dos processos fabris é uma clara aplicação de técnicas computacionais no setor produtivo. Desse modo, essa técnica avançada – a robótica – contribuiria para substituir pessoas nos processos fabris, causando o desemprego delas. Acho difícil a questão ser anulada, pois a Banca Examinadora pode argumentar que o comando da questão baseava-se no texto de Milton Santos e, tomando-o como verdadeiro, o item da letra E exemplifica, corretamente, o pensamento do aludido cientista.

    • Thomas Conti

      Olá José Marcos, concordo com o tipo de exposição que você apresentou, mas a meu ver o problema persiste. O texto do Milton Santos “Por uma Outra Globalização” tem em mente principalmente a crise dos 80 e 90 no Brasil, embora ele também comente sobre a América Latina, a meu ver sua preocupação de segunda ordem, e Europa e Estados Unidos em terceiro. Não vejo este texto dele como particularmente preocupado com como a questão se manifesta na Ásia. A automação destruiu Detroit nos EUA, desindustrializou parte do parque brasileiro, mas gerou os efeitos opostos na Ásia – lá aumentou o investimento industrial e aumentou o emprego. Não acho que esse cálculo geral fosse a preocupação do Milton Santos, o que é legítimo dada a proposta do livro dele, porém o formulador da questão deveria ter levado isso em conta na formulação. Abs

  Posts

1 2 3 6
abril 22nd, 2017

As Virtudes e os Critérios Intelectuais Universais

abril 18th, 2017

Boas fontes para dados e gráficos atualizados do mundo

abril 15th, 2017

[Review] Utilitarismo e a Ética da Guerra (Shaw, 2014)

março 15th, 2017

Ideias Econômicas que Você Deveria Esquecer: Capitalismo [tradução]

fevereiro 17th, 2017

Apropriação Cultural: uma história bibliográfica

fevereiro 14th, 2017

Filosofia da História 1: a História e sua Representação [tradução]

janeiro 20th, 2017

O caráter intelectual dos teóricos da conspiração

janeiro 3rd, 2017

Caos diplomático ontem e hoje: Donald Trump e o Imperador Wilhelm II

dezembro 26th, 2016

Retrospectiva: Publicações destacadas de 2016

novembro 9th, 2016

Como os EUA elegeram Trump, em três filmes