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O título não poderia deixar de ser uma provocação, mas bem intencionada – peço perdão aos colegas historiadores pelo anacronismo.
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Em 1 de Fevereiro de 1960, quatro jovens universitários negros, vestidos com suas melhores roupas, entraram na lanchonete Woolworth’s em Greensboro, no Estado da Carolina do Norte, EUA. Os estudantes compraram alguns itens da mercearia sem nenhum problema, e em seguida pediram um lanche no balcão de serviços da lanchonete.

O evento, aparentemente banal, é um marco histórico da luta por direitos civis nos Estados Unidos. Tudo porque os estudantes, contrariando a política da loja, fizeram seus pedidos na área do balcão que era reservada para as pessoas brancas, quando havia indicações explícitas de que a área para as pessoas “de cor” era mais ao canto da loja.

Os funcionários da loja se recusaram a atender ao pedido dos jovens, e o gerente pediu que se retirassem do estabelecimento. Os quatro jovens ficaram sentados até o horário que a loja fecharia, esperando pacientemente serem atendidos – o que não aconteceu.

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No momento da foto, uma mulher branca idosa ia em direção aos quatro. Um deles, Franklin McCain, relembra o que sentiu no momento: “Eu estava pensando comigo mesmo, ela deve ter uma faca de amolar e tesouras naquela bolsa dela e elas estão prestes a me atravessar direto. Quero dizer, nós estávamos invadindo o espaço dela, um espaço que nos era dito que nós não podíamos habitar.” A citação vem de uma entrevista dada por McCain em 2010, no aniversário de 50 anos do protesto de Greensboro.

No dia seguinte ao protesto, mais de vinte afro-americanos reuniram-se na loja, onde novamente tiveram seu pedido recusado e sofreram discriminação por parte dos clientes brancos do recinto. No terceiro dia, por volta de 60 pessoas juntaram-se ao protesto, e a loja protegeu-se alegando estar “de acordo com a lei estadual”, que era favorável à segregação.

No quarto dia, mais de 300 pessoas, que aprenderam a dinâmica do protesto, juntaram-se e começaram a ocupar mais lojas da região. Os protestos, que ficariam conhecidos como “sit-ins”, espalharam-se para outras cidades e Estados, e foram um ponto de inflexão crucial na luta por direitos civis nos Estados Unidos, atraindo a atenção da mídia e da Casa Branca, com o então presidente Eisenhower declarando ser “profundamente simpático aos esforços de qualquer grupo a gozarem dos direitos de igualdade que lhes é garantido pela Constituição”.

Os protestos continuaram por meses, ainda que não raro sofrendo reações violentas por parte de lojistas ou clientes. Mas, em julho daquele mesmo ano, a rede de lojas onde os jovens protestaram aboliram a segregação por cor dentro do estabelecimento, e outros recintos do sul dos Estados Unidos também começaram a desfazer as divisões raciais. Hoje, os quatro bancos onde os jovens se sentaram fazem parte do museu do Instituto Smithsonian da História Americana, e a sessão específica do museu foi construída onde era a loja onde os jovens protestaram pela primeira vez.

Greensboro Museu luta direitos civis estados unidos rolezinho

O lugar que os quatro jovens se sentaram preservado em museu da história americana.

Rolezinhos, Brasil, 2012-2013

Estou em vias de terminar um artigo apenas para tratar da questão atual dos “rolezinhos” em nosso país, mas gostaria de já deixar aqui algumas provocações.

Por que as pessoas dos shoppings tem medo destes jovens?

Quando relembramos o acontecimento dos Estados Unidos, nos é difícil entender como os funcionários da loja e seus clientes puderam agir da forma que agiam, ou como a lei do sul dos Estados Unidos podia permitir tamanha discriminação. Parecem coisas muito distantes, de um passado longínquo. Mas é na verdade muito recente, e fato é que temos poucos motivos para crer que aquelas pessoas eram biologicamente diferentes de nós em qualquer sentido. Elas reagiram com uma mistura de sentimentos que, colocadas lado a lado com o impacto que teve o “rolezinho”, é muito similar.

Primeiro, elas tem medo. Penso que os dois maiores medos do ser humano são o desconhecido, e outros seres humanos. Junte os dois e multiplique o número de componentes e o potencial para o medo irracional é quase irreversível. Assim como os brancos do sul dos EUA, acostumados com o distanciamento e o preconceito, não conheciam nada da vida dos negros, quem eles eram, qual sua cultura, etc, parte significativa da sociedade brasileira hoje não tem a menor ideia de como é a vida e os costumes de seus novos jovens adolescentes, negros, pobres, ou que seja. Conseguem apenas evidenciar que de fato são “gente diferenciada“. Em outras palavras, ignorância, preconceito e má vontade, atreladas à racionalidade estatística e contábil que organiza os shoppings centers conforme o público-alvo e que já de partida segrega seus frequentadores por classe. Basta ver como rolezinhos tradicionais da alta classe nunca geraram polêmica ou balas de borracha.

Outra provocação é como as regras dos espaços privados e a lei pública são colocadas em tensão nesses acontecimentos. A lei federal dos Estados Unidos colocava todos como iguais e em tese não permitia a discriminação. Forças da tradição, aliadas ao elitismo muito bem apadrinhado financeiramente, eram contudo fortes suficientes para que em diversos Estados o dia a dia pudesse ser organizado numa lógica que era diretamente contrária à lei. Após os protestos, evidente que houve a vitória da lei federal sobre as inclinações pessoais dos lojistas, mas só depois de anos de luta, muito sangue derramado e desconfortos por toda parte. Aqui no Brasil as coisas não chegaram ao ponto de haver placas indicando onde brancos e negros devem ir, ou pobres e ricos devem ir, mas é completamente lícito fazer estabelecimentos para as classes altas em regiões onde o transporte público é péssimo ou inexistente, ou adotar uma política que permita apenas lojas de alto padrão e altos preços no estabelecimento de modo a não convidar “populares”, ou cobrar taxas abusivas de estacionamento onde não se quer os pobres, dentre outras táticas que, alega-se, são apenas métodos matemáticos e estatísticos de aumentar as vendas. Talvez isso seja em parte verdade, mas definitivamente não são “só” isso.

Para concluir, com este artigo não era meu intuito realmente classificar uma luta decidida por direitos civis dos EUA como um “rolezinho”, nem dizer que o rolezinho é uma luta consciente por direitos civis no Brasil. Entretanto, os jovens dos EUA não tinham a menor ideia que estavam marcando a história do país – na verdade deviam estar pensando mais no quanto estavam arriscando a vida. Nesse momento tampouco sabemos o que significa esses rolezinhos. Enfim, com ressalvas, acredito que existem paralelos e lições importantes que devemos nos dispor a refletir sobre, uma vez que ainda vivemos, sim, num dos países mais desiguais do mundo, herança que, ao menos do meu ponto de vista, não lutamos um centésimo do que seria necessário para de fato combatê-la.

E ah, já ia esquecendo. Sobre a mulher que se aproximara do jovem manifestante McCain na lanchonete dos EUA, ela não o atacou. Na verdade, surpreendentemente, ela sorriu para ele e disse: “Garotos, estou tão orgulhosa de vocês. Apenas lamento não terem feito isso há 10 anos atrás”. Segundo o próprio, as palavras dela foram uma fonte de inspiração para ele durante toda a sua vida.

AT quatro luta direitos civis Estados Unidos Monumento

Monumento aos quatro jovens que fizeram história nos EUA. David Richmond, Franklin McCain, Ezell Blair Jr, Joseph McNeil.

OBS: Recomendo muito o filme “The Butler” (no Brasil, “O Mordomo da Casa Branca“), que reencena o momento da lanchonete que recontei aqui e retrata muito da sociedade americana nos conturbados anos da luta por direitos civis, e as condições do racismo no país ao longo de quase todo o século XX.

Thomas Victor Conti tem 27 anos, possui Mestrado e Graduação em Economia, é doutorando em Economia pela Unicamp. Trabalha como professor e assistente de coordenação na Especialização em Law & Economics da Unicamp. Meu objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

3 Responses to “Estados Unidos, 1 de Fevereiro de 1960: o primeiro “rolezinho””

  1. Geraldo

    Parábens pelo artigo, muito bom, agregando contexto histórico e contemporâneo (ainda,infelizmente), marcado pelo preconceito.

  2. Renato F Santos

    Bom texto mas são situações distintas. Esse tal de rolezinho nada tem de parecido com o assunto histórico nos EUA. O intuito é criar tumulto e pânico para facilitar o furto!!!! E não tem só negros e mestiços nesse rolezinho não. Em SP re-inventaram um nome para arrastão. O que acontece no Brasil é o seguinte: se vc entra de mal humor num elevador e não cumprimenta um branco é mal humorado e sem educação mas se pelo mesmo motivo não cumprimenta um negro é racista…façam-me o favor!!!!!

  3. Diego

    Parabéns pelo texto.

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