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Durante todo o período das eleições e mesmo após o resultado final, saíram com grande destaque diversas notícias sobre o desempenho da Bolsa de Valores, as avaliações “do mercado” sobre a política do país e o que esperar do cenário econômico brasileiro – tudo isso em meio ao caos eleitoral, pesquisas de intenção de voto e a politicagem da escolha dos principais ministérios do governo federal.
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O que me parece é que nem sempre essas relações são explicadas com o cuidado que merecem. As notícias quase nunca mostram claramente os limites dos argumentos e o que realmente está acontecendo por trás dos bastidores. Infelizmente, entender um pouco de economia só faz parte do ensino superior (e nem sempre com a devida qualidade e atenção). Assim, a ideia do post dessa semana é apontar algumas mentiras repetidas à exaustão por aí e mostrar alguns dados mais ilustrativos de como podemos entender a relação da Bolsa de Valores tanto com o mercado quanto com a política no país.

Bolsa e Eleições: o mínimo que é necessário saber

(1) A Bolsa de Valores NÃO é “o mercado”

O Brasil possui mais ou menos 6,3 milhões de registros formais de empresas – número subestimado, uma vez que o país tem 17 milhões de registros de empresas se contarmos com os autônomos, e seria ainda maior se adicionarmos todas as empresas informais não registradas nesses indicadores. Já a bolsa de valores possui menos de 700 mil investidores. Para efeito de comparação, só nos EUA por exemplo, há mais de 16 milhões de famílias americanas que possuem ações em Wall Street, sendo bem mais representativo da população americana em geral (13,8% das 112,5 milhões de famílias americanas) do que os investidores brasileiros. A aplicação na Bolsa não é uma cultura no Brasil.
De toda forma, quando falamos no mercado normalmente estamos preocupados com salário, lucro, taxa de crescimento e taxa de desemprego. Nada disso é estritamente de competência da bolsa de valores, que é um mercado de títulos e não de bens, operando pela taxa de rentabilidade de compra e venda de Títulos de Propriedade, e não força de trabalho, etc.

(2) Os movimentos da Bolsa de Valores nem sempre são um bom parâmetro estatístico para projetar a avaliação “do mercado”

Do volume total de recursos movimentados na BM&-Bovespa, 47% provém de investidores estrangeiros e 32% provém de investidores institucionais. Isso significa que, de todas as oscilações de preço que assistimos na TV e lemos nas notícias de jornais, em média 79% derivam dos julgamentos de valor e das tentativas de previsão de rentabilidade futura destes dois grupos de interesse – ambos bilionários, vale lembrar.

Quanto da visão destes dois agentes bilionários tem relação com a vida, as expectativas e as possibilidades das milhões de empresas do país? Muito pouco. Evidentemente isso pode ser discutido e melhor trabalhado num post futuro. De toda forma, esse problema nos leva ao terceiro ponto.

(3) “O Mercado” nada mais é do que um conjunto de pessoas

Muito embora direita e esquerda adorem falar sobre o mercado ou a bolsa de valores como se fossem entidades metafísicas (glorificadas para os primeiros e demonizadas pelos segundos), na verdade a oferta do tal “mercado” é regida por esses milhões de CNPJs, mais todas as empresas e autônomos não-formalizados, todos dependendo de um número ainda maior de relações trabalhistas para manter suas posições.

Isto é, envolvendo com certeza um número muito (MUITO) maior de pessoas e formando um conjunto extremamente heterogêneo entre si, fazendo pouco sentido até mesmo falar do mercado como uma coisa só. Podemos dividir o tal mercado por setores, por regiões, por tamanho da empresa… qualquer segmentação ajudaria a traçar distinções importantes sobre o que se espera que faça “o mercado”, e em que medida aquele segmento tem ou não alguma relação com a sua vida. Para quem tem uma pequena empresa de ventiladores ou de caminhões pipa (pequenas demais para ter capital aberto em Bolsa), por exemplo, o efeito da seca será muito diferente do que será para a Sabesp – os investidores na bolsa podem perder dinheiro com isso, muito embora outro setor “do mercado” fora da bolsa esteja indo muito bem obrigado. Rigorosamente, é impossível o mercado ter uma posição unívoca. Especialmente na Bolsa de Valores, onde todos os participantes não estão tomando decisões de vida ou morte mas apenas de opinião, toda troca pressupõe que alguém esteja pensando diferente – um acha que o preço vai subir e outro acha que vai cair. Como diria o velho e mórbido conto da carochinha, até se alguém quisesse enforcar todas as pessoas haveria um vendedor de cordas pra se dar bem com isso.

Pouco se fala, por exemplo, que 98% das empresas do país são ou empresários autônomos ou micro e pequeno empresários. Somados com as médias empresas, são 99%. Juntos, são também os responsáveis pela maior parte da geração de empregos do país. Pelo que se vê nas notícias da mídia, fica parecendo que os grandes grupos são o ponto central até para gerar empregos. Não que não sejam importantes. São, sim. Movimentam um conjunto enorme de recursos e dinheiro, concentram a maior parte dos empregos de alta remuneração e ainda empregam parcela muito significativa dos trabalhadores, embora não a maioria deles. Mas, se quisermos formar uma imagem do que seria esse conjunto gigantesco que por tradição chamamos de mercado, evidente que falar só sobre eles seria um grande equívoco.

Em outras palavras, dado que os 650 mil investidores pessoa física que participam da Bolsa movimentam apenas 15% do volume total da BMF (um terço da importância dos estrangeiros e metade da participação dos investidores institucionais), a mensagem que queria passar é que se pondere até que ponto o conjunto de pessoas que participa da bolsa de valores no Brasil, e o peso que cada um têm ali, seria um bom critério para estimar como “o país” ou “o mercado brasileiro” quer ou espera. Isso independentemente da posição política que se tenha.

Mais ainda, não há necessariamente uma relação entre a valorização da Bolsa de Valores brasileira e da economia brasileira como um todo. Por que? Porque a maior parte da rentabilidade das empresas financeiras que, como vimos, são responsáveis pela maior parte da movimentação da bolsa, está atrelada à posse de títulos da dívida pública brasileira (ver página 35) – o ativo de menor risco disponível e ademais de elevadíssima rentabilidade.

Ou seja, para parte significativa do mercado financeiro, quanto maior for a remuneração dos títulos públicos, maior será sua expectativa futura de rendimentos e, portanto, mais “otimista” ficará – ao menos até que os juros elevados, junto com outros fatores, arrebentem de vez com as contas públicas, como ocorreu repetidas vezes na história econômica brasileira. Um aumento brusco nos juros é um jeito comum de controlar a inflação, embora tensione para gerar desemprego na “economia real” – a bolsa, no entanto, se valorizaria, indo na direção oposta da maior parte das pequenas empresas, que sofrem mais com choques recessivos do que os grandes grupos econômicos. O que nos leva para a visualização final dessa tensão e a relação entre a bolsa e as eleições:

(4) Bolsa e Eleições: lógica de curto prazo e a (necessária) retórica econômica do poder político

A variação nas apostas da bolsa de valores conforme as oscilações do embate eleitoral é um fenômeno completamente normal – motivo até de estudos econométricos relacionando o ciclo eleitoral com o retorno das ações, ainda que o comportamento seja distinto entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Isso ocorre porque eventos de grande envergadura como eleições presidenciais são mais fáceis de direcionar a opinião das pessoas em um sentido previsível, e a partir daí um especulador esperto pode fazer apostas contrárias e ganhar muito dinheiro. O central é para onde vai a opinião pública: no Brasil, o caso da carta do Santander que comentei aqui no blog foi emblemático deste tipo de direcionamento.

Entretanto, esses movimentos dificilmente podem ser tomados como ilustrativos de como a economia/mercado (ou mesmo a Bolsa) se comportará no médio e longo prazo. O gráfico abaixo mostra a enorme volatilidade da Bolsa de Valores brasileiras nos 3 últimos meses:

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Períodos em destaque:
13/ago: Morte do candidato Eduardo Campos em acidente. Bolsa cai, aumenta o volume de transações.
29/set: Queda nas ações da Petrobras e aumento das intenções de voto em Dilma gera a maior queda na Bolsa em 3 meses.
05/out: Primeiro turno das eleições. Bolsa dispara na segunda-feira seguindo o desempenho acima do esperado de Aécio. Volume transacionado atinge o segundo maior valor em 3 meses.
13/out: Marina Silva declara apoio à Aécio Neves. Bolsa dispara, mas volume transacionado não tem aumento tão significativo.
15/out: Uma das maiores quedas na Bolsa, mas o motivo não foi eleitoral: novos dados da economia americana e chinesa geram preocupação nas bolsas do mundo todo.
26/out: Segundo turno das eleições. Maior volume transacionado na Bolsa em 3 meses. Bolsa fecha em queda de 2% na Sexta seguindo as pesquisas de intenção de voto que mostravam Dilma na frente.
30/out: Dias após a eleição de Dilma, Copom anuncia aumento da taxa de juros. Bolsa tem forte alta de 4%. Alta nas ações dos bancos mais que compensa a queda nas ações da Vale.

A mensagem que esses dados mostram é que não podemos tomar as oscilações de um dia para o outro como representativas do comportamento de longo prazo da economia. Nos noticiários sempre se dá grande atenção para o que aconteceu com a Bolsa no dia, mas nem uma alta na Bolsa é garantia de bom desempenho futuro, nem uma baixa na Bolsa é garantia de desempenho ruim. Como o aumento dos juros do dia 30 evidencia, agradar os grandes financistas que representam a maior parte do dinheiro que circula na Bolsa é politicamente muito fácil (embora extremamente custoso aos cofres públicos). As dificuldades se dão em outra dimensão do problema, que comentei com um pouco mais de detalhamento em artigo logo antes de sabermos quem seria o presidente eleito.

O ponto crucial é entendermos que no mundo de hoje praticamente qualquer argumento político só é válido se justificado em termos econômicos. O Bolsa Família foi defendido pelos principais candidatos sob a justificativa de ser um método barato e eficiente de redução da desigualdade e da pobreza; boa parte dos argumentos eleitorais giravam em torno das habilidades de gestão eficiente de cada partido, com petistas atacando a crise da água em São Paulo e tucanos atacando os casos de corrupção da Petrobras; e por aí vai… é um desafio e tanto encontrar algum argumento político que não use a racionalidade econômica como base para se justificar.
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É por isso que, para mim, é mais fácil entender o grande destaque às variações da Bolsa nesse contexto. Tratando-se de uma instituição tomada como importante pelo público e facilmente tomada como análoga “ao mercado” ou “à economia”, por que não usar suas variações para atacar esse ou aquele inimigo, essa ou aquela proposta? Mesmo que para a vida das pessoas isso tenha pouco ou nenhuma relação a menos que a queda na Bolsa seja drástica, com toda certeza o argumento da “avaliação de mercado” pela bolsa de valores será utilizado sempre que possível.


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Thomas Victor Conti tem 27 anos, possui Mestrado e Graduação em Economia, é doutorando em Economia pela Unicamp. Trabalha como professor e assistente de coordenação na Especialização em Law & Economics da Unicamp. Meu objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

6 Responses to “Entenda a relação da Bolsa de Valores com as eleições e o mercado”

  1. Caio Eduardo

    Belo texto Thomas!

    Só senti falta de uma palavra enquanto eu o lia, especulação. As notícias mudam as expectativas e desencadeiam inúmeros movimentos, com os investidores refazendo suas posições, no mercado financeiro. O resultado diário dessas mudanças, seja positivo ou negativo, na maioria das vezes não tem respaldo físico nenhum. São bilhões de reais se deslocando em diversos sentidos, em um único dia, sem que nada tenha mudado na vida prática.
    Não condeno o mercado financeiro e as bolsas de valores. Esses fluxos são normais, resultado da imensurável liquidez que elas proporcionam, mas, acho que é essa percepção que falta às pessoas.

    Ótimo blog!

    • Thomas Conti

      Olá Caio, como o artigo já estava longo não quis ir muito a fundo nesse aspecto, mas no tópico (4) sobre a lógica especulativa de curto prazo a ideia era apontar justamente esse movimento que você descreveu. Abraços

  2. Aníbal Menezes

    Thomas, o teu texto acima ignora una questão a cada dia mais importante nas operações de bolsa de valores y que é crucial para entender as oscilações: o uso cada vez mais intenso da tecnologia. Atualmente, operadores e instituições financeiras usam sistemas que monitoramento das cotações que, através da análise técnica em tempo real, é capaz de colocar milhares ordens de compra e de vemta (dependendo da oscilação que ocorra e como está posicionado o investidor na(s) ação (ões) em fração de segundos. Esses movimentos tão rápidos não apenas distorcionam o funcionamento do mercado mas, em determinados momentos, são capazes de provocar fortes altas ou baixas, impedindo que os pequenos investidores, que não contem com este tipo de ferramentas, coloquem as suas ordens de compra ou venda, e assumanpm os maiores prejuízos.

    • Thomas Conti

      Olá Aníbal, as trocas via algoritmo ou black-box trading são importantes para termos uma dimensão da escala contemporânea das operações financeiras, porém não sei mensurar quanto das operações na BM&F são feitas através desse método. Sem esse número fica difícil argumentar, podem ser muito importantes como podem ser pouco importantes, seria apenas um chute. Mas bem lembrado, acho que no futuro pesquisarei sobre isso para um novo artigo. Abraços

  3. Anibal Menezes

    Olá, Thomas, obrigado pela tua réplica. É verdade que não se sabe exatamente a dimensão dessas técnicas no mercado acionário brasileiro. Mas, se tomarmos em conta que nos EUA hoje mais de 70% de todas as ordens (fonte: http://en.m.wikipedia.org/wiki/High-frequency_trading) podemos imaginar que no Brasil, que possui um mercado acionário eletrônico e sofisticado, essa taxa também seja alta.

    Omque leva à conclusão que o mercado acionário cada dia tem menos a ver com expectativas e mais a ver com uma questão eminentemente técnica e dos hedge funds (fundos de derivativos) que é a taxa de retorno esperada para cada um dos papéis transacionados por cada usuario institucional do sistema. É uma espécie de deshumanização das operações.

  4. Geovani Lopes Dias

    Olá, Thomas.
    Sigo tu no FB, desde uma postagem que li tua há meses, mas não lembro qual… XD
    Primeiro, uma crítica (construtiva): não achei muito elucidativo o texto em termos básicos. Sei que é um tema complexo, o mercado econômico possui N variáveis intervenientes, mas o que senti faltas foi de precisões de conceitos básicos. Talvez seja implícito que este post seja para estudantes de economia, mas não captei essa “implicitação”. Como não sou, senti falta.
    Segundo, um favor que lhe peço: acabei meu mestrado em Ensino de Ciências e Matemática sexta, e tenho estudado História e Economia por conta. Mas encontrei apenas livros da escola austríaca. Não que os julgue eu como in/apropriados, mas gostaria de saber da parte de um “economista de esquerda”, se é que posso por nestes termos, recomendações de outra perspectiva.
    Gostaria também, se possível e não for abusar-te a paciência, que respondesses a seguinte inquisição:
    há espaço na academia econômica brasileira para o diálogo, ou a escola de Frankfurt (ou a austríaca) marcam mais? Se alguma delas marca mais, pergunto também: como vês esse quadro acadêmico?
    Abraço!

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