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A frase que dá título a este texto é uma referência ao célebre livro de George Orwell, “A Revolução dos Bichos”. No original, ela aparece como “somos todos iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”.

Na Revolução dos Bichos, após uma revolta dos animais da fazenda contra um cruel fazendeiro, os animais que souberam conduzir o movimento – os porcos – aos poucos passam a ditar os rumos da nova comunidade. Os porcos pregavam a igualdade entre todos os animais, mas lentamente passavam medidas que os diferenciavam dos outros. Reescrevem a história da revolta, criam e recriam ídolos e fazem de tudo para que no discurso todos sempre apareçam como iguais. Após um tempo, os animais da fazenda, de memória curta, já não se lembram mais de como realmente se deram os fatos da revolução, nem se a vida era melhor ou pior na época do fazendeiro. O leitor, contudo, se lembra. E só pode observar atônito enquanto os porcos, sempre falando em igualdade, acabam por se auto-proclamar um grupo “mais igual” – tão cruel e explorador quanto o era o ex-fazendeiro.

Não estou dizendo que isto é o que se tornaram as manifestações, que sem dúvida trazem diversos pontos positivos para o país. Originalmente, os protestos foram uma contestação do regime excludente, desigual e opressivo que caracterizava a política brasileira, mais incisivamente a política do transporte público e a conduta violenta da polícia na repressão aos movimentos sociais e às manifestações.

Esse primeiro movimento, conduzido pelo Movimento Passe Livre e simpatizantes, era em sua essência apartidário, igualitário e progressista. Não traçavam identificação com nenhum partido (apartidarismo) tanto para manterem a liberdade de crítica ao sistema como um todo, quanto para conseguirem ter um objetivo claro e angariar apoio de quem quer que estivesse disposto a lutar pela causa do transporte público gratuito e do Direito à Cidade. Constatavam uma injustiça, uma desigualdade que deveria ser combatida. A ideia geral, como alguns manifestantes tentam gritar nos protestos enquanto são sufocados, seria “A luta é uma só”.

Contudo, o movimento cresceu e tomou proporções inimagináveis, com resultados que até o momento estão completamente em aberto. Quem estiver buscando por uma saída progressista e mais igualitária disso tudo, deve ficar atento. O problema a que Orwell chamava a atenção, e que acredito mereça ser lembrado hoje, é de como certas pessoas, em especial as classes superiores, são capazes de fazer uso do discurso de “somos todos iguais” para na prática excluírem diversos outros setores da sociedade, que consideram inferiores em vários sentidos, seja ele intelectual,cultural, moral, racial, monetário, político, etc.

Simplesmente falar que todos são igualmente brasileiros não é fazer com que, num passe de mágica, todas as enormes desigualdades do país deixem de existir. Um verdadeiro discurso igualitário não diria que todos já são iguais sob a bandeira mas, pelo contrário, identificaria a origem das desigualdades e seria propositivo nas medidas necessárias para que os brasileiros enfim caminhassem para uma maior igualdade real.

Embora originalmente a igualdade era um fim – igualdade de direitos, de respeito às diferenças, de oportunidades -, com o que vem acontecendo nos últimos protestos está cada vez mais nítido que quem vai as ruas toma por dado que todos já são iguais. Se não há identificação da desigualdade, o que acontece de fato é que os que são oprimidos pelo sistema estão sendo deixados de lado. Os “mais brasileiros” estão se colocando na frente. Aparentemente, são “mais brasileiros”: cidadãos avessos a todo e qualquer partido (mesmo aqueles que nunca tenham chegado ao poder); cidadãos que nunca compuseram qualquer movimento social (isto é, decididamente nunca se viram em uma posição onde eram oprimidos e necessitavam se reunir); cidadãos que estão insatisfeitos mas que nunca viveram o suficiente para ter raiva do sistema ao ponto de querer apedrejá-lo. Os “mais brasileiros”, mesmo sem organização central, tomam uma coisa como fato inquestionável: esse movimento é deles, não “dos outros”, dos “menos brasileiros”.

Mas há que se saber contra quem se está (ou estamos) lutando. Quem são os fazendeiros, e quem são os porcos. São os políticos em geral? Se sim, coloca-se o problema premente em qualquer democracia: a liberdade política e de expressão significa que todo cidadão é livre para se candidatar – isto é, em teoria todos somos políticos em potencial. Como reorganizar essa democracia desacreditada? Como fazê-lo se todos os partidos e seus afiliados são encarados como de segunda categoria e objeto de hostilidade e agressão?

Enquanto nas ruas esses problemas polarizam os protestos por dentro, a desigualdade da realidade brasileira segue livre de críticas mais contundentes, com manifestantes se ajoelhando diante da Fiesp para cantar o hino nacional de um lado enquanto outros rasgavam a bandeira de um movimento negro, do outro.

O Movimento Passe Livre conseguiu emplacar uma crítica à injustiça dos transportes públicos nas cidades, mas com essa invasão dos “mais brasileiros” a pauta foi permeada de interesses escusos.

Enquanto isso, a grande mídia passou de fazendeira para suína, apoiando as causas que lhe convém e colorindo o movimento com um verde e amarelo que traveste as diferenças na luta que está em jogo.

Não se engane: os porcos, aqueles que de fato se consideram “mais brasileiros”, não aceitam caminhar ao lado de imagens que representam uma luta contra a opressão ou contra a hierarquia do sistema. Isso porque para os porcos não há opressão, não há sistema, já somos todos iguais – ou ao menos seríamos, se não fossem os políticos, por definição corruptos, trazer a chaga da injustiça à nação. Racismo, desigualdade de renda, machismo e homofobia são problemas de segunda ordem.

Na continental fazenda brasileira, os porcos não querem defender todas as causas contra todos os fazendeiros. Pelo contrário, já querem convencer os outros de que só existe um fazendeiro – e ele viveria de impostos e extravio de verba pública. Tudo o mais são problemas secundários, dos “menos brasileiros”.

Sim, somos todos brasileiros. Mas me recuso a aceitar que uns o sejam mais do que os outros. A luta deve caminhar para a igualdade, e não partir de um discurso vazio de uma igualdade nacional que não existe apenas para fazer as mudanças que uma parcela restrita da população, auto-proclamada a única legítima e “mais brasileira”, queira fazer.

É quando o pretexto da nação unida passa a ser utilizado para excluir as minorias organizadas e aqueles que não estão politicamente confusos como os “mais brasileiros” querem estar que devemos repensar contra o que estamos de fato lutando. Conquistar a justiça social requer discernimento para enxergar quem realmente são os fazendeiros e quem são os porcos. Como foi no início, devemos treinar os olhos para reconhecer e lutar contra ambos os opressores.

Postado originalmente pelo autor na Revista Vaidapé

Tenho 27 anos, possuo Mestrado e Graduação em Economia e sou doutorando em Economia pela Unicamp. Trabalho como professor e assistente de coordenação na Especialização em Direito e Economia (Law & Economics), também na Unicamp. Meu objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

2 Responses to “Somos todos brasileiros, mas alguns são mais brasileiros do que outros”

  1. Artur Monte Cardoso

    Thomas, tenho acompanhado o teu blog com interesse. Acho válida sua preocupação com a distinção entre os exploradores (e os que compactuam com a exploração) e os explorados e oprimidos dentro do nacionalismo. Acho, contudo, que há valorização – e dai uma preocupação – excessiva com o conservadorismo e a reação. Esse conservadorismo é muito presente na sociedade brasileira, não foi superado com a redemocratização – até porque não existe uma democracia permeável aos conflitos e às reivindicações por mais direitos. Mas dentre os apartidários e antipartidários, existe uma grande massa de pessoas que identifica todos os partidos com os partidos da ordem (PT, PSDB, PMDB, DEM e toda a sorte de partidos negociantes, legendas de aluguel etc.).
    A grande experiência organizativa que poderia identificar os brasileiros com a política partidária, sindical, movimentos etc., que foi o PT, tornou-se o partido da desmobilização. É natural que quem “acordou” para a política agora tenha (a) um conjunto de reivindicações difusas (é o nível de consciência política que o Brasil dos 10 anos de PT lhe deu) e (b) aversão à “política” e aos partidos, pois representam a fusão pornográfica de interesses privados com o Estado. Incluem ali quaisquer partidos, porque mesmo os partidos e movimentos de esquerda que resistiram a essa avalanche são pequenos e ainda incapazes de mostrar-se como alternativa viável (eu me incluo neles pelo PSOL).
    Tem razão o brasileiro que quer queimar a bandeira nacional porque o país não é uma nação. Tem razão o brasileiro que levanta a bandeira e canta o hino, pois ver o povo na rua é algo novo e surpreendentemente subversivo e empolgante: a possibilidade de ser uma nação.
    Não tendo experiências políticas nem organizações como referências, não enxergam lideranças, nem sabem como canalizar a estrondosa força para conquistar direitos. Mas já abriram as portas da possibilidade de protestar, o que há duas semanas era proibido.
    Cabe a todos e todas que sabem haver lados na jogada impulsionar as lutas concretas (transporte público, e em seguida outras), ajudar a identificar os responsáveis (a burguesia e seus governos) e dar o exemplo do que fazer para conquistar. Uma geração nova despertou e a eles pertence o futuro da revolução brasileira. Mas ela não é uma fatalidade – depende do elemento consciente e organizado.

    • Thomas Conti

      Olá Artur! Antes de tudo, agradeço muito o comentário. Você fez uma análise ao meu ver muito boa da conjuntura atual e da raiz desse posicionamento que estamos assistindo, concordo com todas as ponderações. Talvez muitos, possivelmente eu incluso, estejam enfatizando demais os aspectos conservadores/reacionários do movimento. Contudo, ao contrário de muitos não chego ao ponto de achar que as manifestações já deram o que tinham que dar. Minha visão do momento presente é que o fundamental é pararmos para refletir sobre o que aconteceu e o que fazer adiante. Continuar indo para as ruas a esmo dará margem para desvirtuar quaisquer bons resultados que poderiam advir do movimento.
      Cheguei a debater com colegas sobre essa questão da nação, esse projeto que odiamos não poder amar. Estou longe de ver má intenção em todos que cantam o hino, mas vejo sim um problema de falta de discernimento quanto àqueles que levantam a bandeira. Enfim, tudo está em aberto e, como você colocou, os rumos dependerão da consciência e da organização. Agradeço muito a riqueza de detalhes na sua exposição, acrescentou-me muito! Abraços

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