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Entendendo o impasse entre Coréia do Norte e Estados Unidos

Estados Unidos Coreia do Norte poder blog thomas conti
Nas últimas semanas assistimos ao aumento das tensões na Península da Coreia, com a Coreia do Norte fazendo comunicados oficiais belicosos contra a Coreia do Sul, o Japão e os Estados Unidos. Embora as informações que temos sobre os movimentos e intenções reais envolvidos sejam bastante ruins para prevermos o que estaria por vir, acredito que ao situarmos o caso em meio aos conflitos geopolíticos internacionais da atualidade, podemos entende-lo melhor e ainda discutir um pouco sobre a questão do poder no séc. XXI.

Um fato interessante sobre o conflito é a constatação de que, na realidade, os Estados Unidos aparentemente estão mais preocupados com a Coréia do Norte do que os vizinhos sul-coreanos, ou mesmo o Japão. A questão que nos servirá de norte nesse artigo é entendermos justamente o porquê.

‘Potência Mundial’ x ‘Estados Menores’

Ao contrário do que se costuma pensar, desde o século XIX a divisão de força entre países é apenas em última análise um problema militar, isto é, se tudo mais falhar, o recurso ao poderio militar acaba determinando as regras do jogo. Isso  revela definitivamente a sua enorme importância, porém não a sua primazia diante de outros problemas que precisamos entender.

Se o jogo e as preocupação acerca do embate entre Coreia do Norte e Estados Unidos fosse uma questão militar, os Estados Unidos seriam aqueles menos preocupados do mundo: com um gasto militar anual de 711 bilhões de dólares, caberiam dentro do orçamento militar dos Estados Unidos quase 18 economias inteiras da Coréia do Norte, cujo PIB total estimado é de apenas 40 bilhões de dólares. Mesmo se a Coréia do Norte gastasse um grande percentual de seu PIB em gastos militares (como em geral se sugere), não há a menor condição daquele país rivalizar com os Estados Unidos nessa área, muito menos com o Japão (6º maior orçamento militar do mundo, 59,3 bilhões de dólares) ou a Coréia do Sul (12º maior orçamento, 30,8 bilhões). É evidente que a desproporcionalidade não se atém apenas a esses números: a qualidade e as capacidades militares efetivas desses países são também incomparáveis, e a Coréia do Norte não tem como não saber disso.

Embora o risco de confronto direto seja baixo, ele existe. Daí já poderiam emergir preocupações significativas. Contudo, acredito que esse não seja o foco que explica nossa questão principal. O que está em jogo é:

  • 1. De um lado, a capacidade dos Estados Unidos de manter uma ordem internacional estável baseada na sua hegemonia;
  • 2. De outro, a capacidade de organização das forças que se opõem a essa ordem americana.

Entendendo o primeiro ponto: manutenção da ordem internacional fundada na hegemonia dos Estados Unidos

Dentre outros gastos no orçamento militar dos Estados Unidos consta a manutenção de pelo menos 834 bases militares internacionais posicionadas em regiões estratégicas, como na Europa, Austrália, Oriente Médio e, principalmente para nossa discussão, também na Coréia do Sul e Japão.

Para esses países, a presença de bases militares americanas em solo nacional em maior ou menor grau acaba significando abrir mão de certa independência e soberania. Contudo, como contrapartida, eles também desfrutam de alguma vantagem: podem usufruir de certa segurança militar sem ter que dedicar gastos tão grandes para manter um exército ativo.

Daí um dos problemas das ameaças recorrentes da Coréia do Norte para os Estados Unidos. A região não poderia ser mais tensa: uma fronteira entre Rússia e China, nas proximidades de dezenas de bases americanas internacionais. No ano passado, antes da crise política começar, o novo Primeiro Ministro do Japão já havia declarado sua intenção de ter um efetivo militar maior em face da previsão de corte de gastos militares após a crise econômica ter atingido os Estados Unidos. A constituição imposta pelos EUA ao Japão após sua derrota na Segunda Guerra Mundial, que visava restringir os gastos do país com rearmamento, até poderia ser revista, contudo no Japão também vem crescendo a insatisfação com a presença das bases militares americanas no país. Isso, sim, não é do menor interesse aos Estados Unidos, e um maior poderio militar japonês aumentaria também o poder de barganha daquele país para pressionar pela saída dos americanos.

Daí grande parte da preocupação dos EUA em responder energicamente à crise da Coréia do Norte. Sendo as ameaças verdadeiras ou não, o país se vê na posição de justificar e defender a presença de suas bases na região, estratégicas para que a China não cria um grande núcleo de alianças regionais.

Em geral, a arma mais forte que os Estados Unidos possui, e que determina sua política em primeira instância, é o seu poderio econômico. Através de sanções econômicas internacionais os EUA conseguem dobrar a maior parte dos países à sua vontade, ameaçando com falta de dólares ou de suprimentos sem pestanejar, como muito explicitado nesse trecho do debate eleitoral entre Obama e Romney sobre política externa e a questão do Irã no ano passado.

É nesse nível que antecede o militar que as ameaças constantes da Coréia tornam-se um problema maior. Podem interferir no enorme fluxo de mercadorias que passa naqueles mares, gerando mais instabilidade e prejuízos, podendo até afetar a economia Chinesa. Foi justamente esse fato que abriu espaço para um diálogo China-Estados Unidos sobre a Coréia do Norte neste final de semana.

Entendendo o segundo ponto: capacidade de organização das forças que se opõem à ordem americana.

A outra determinação que apontamos é a capacidade dos opositores dos Estados Unidos de se organizarem. O regime da Coréia do Norte, assim como o Irã, já declararam oficialmente que se opõem à ordem americana. Nesse aspecto, é ainda mais premente para os EUA que a crise na Coréia seja contida o quanto antes, e seu potencial nuclear seja erradicado.

Isso porque, caso a Coréia saia impune em suas ameaças, o país não apenas reforçaria a mensagem de que ter essas armas é um fim em si, como também que a sua tecnologia já se encontra elevada o suficiente para ser temida pelos grandes atores. Tratando-se um país que não assinou a maioria dos acordos internacionais e cuja economia se baseia na indústria pesada, fica a possibilidade da Coréia exportar sua tecnologia militar para outros interessados  como bem entender – o que alguns acreditam que já estejam fazendo.

O problema desse jogo de poder é que, uma vez que um país já se encontre sob as sanções internacionais mais rígidas – que é o caso da Coréia do Norte – surge o problema de que a única forma de diálogo que resta é justamente a barganha militar. É por ser um Estado pequeno e ‘fraco’, com poucas conexões internacionais, que a Coréia não pode recorrer a barganhas ou ameaças econômicas. E é justamente por isso que nutre pouco interesse em manter a estabilidade das trocas e regras internacionais, liberdade que os Estados Unidos nem de longe possui, que se vê impelida à barganha militar.

O que podemos esperar desse conflito? É difícil falar sobre o que acontecerá, mas de certo o melhor resultado para os Estados Unidos seria um diálogo bem sucedido com a China, para que ela bloqueie suas relações com a Coréia do Norte e consiga obter um compromisso de Kim Jong-un com a estabilidade da região.

Para a Coréia do Norte, um conflito armado declarado seria a derrota total. Contudo, caso saia ilesa em suas relações com a China e não sofra retaliação armada dos EUA, o regime – mesmo sem ter cumprido qualquer ameaça – fortalece a primazia da política baseada na proliferação nuclear e aponta uma direção para os opositores dos Estados Unidos. Pode, ainda, obter mais entradas de dinheiro da China como ‘recompensa’ por não ter iniciado as ofensivas militares. Ademais, se um Estado pobre e com parca tecnologia provar-se capaz de desestabilizar a ordem internacional americana, podemos esperar mudanças em como o poder se distribuirá nas próximas décadas.

De toda forma, respondendo à nossa questão inicial, de fato os Estados Unidos são os que têm mais a perder nesse jogo. Para nós, resta esperar para ver como se desenrola a História.

OBS: tratando-se de um tema extremamente recente esse artigo visa passar de forma breve as informações que o autor julga importantes para entender a questão da Coréia. Pelas restrições de espaço, muitas coisas acabaram ficando de fora. Coloco-me aberto para discuti-las, críticas serão muito bem vindas e agradeço desde já quem tiver mais informações para contribuir ao debate.

Thomas Victor Conti tem 27 anos, possui Mestrado e Graduação em Economia, é doutorando em Economia pela Unicamp. Trabalha como professor e assistente de coordenação na Especialização em Law & Economics da Unicamp. Meu objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

5 Responses to “Coreia do Norte x EUA: o poder no séc XXI”

  1. Rafael Soares

    Ótima análise, Thomas!

    Eu particularmente acredito que seja um grande problema essa questão da primazia política baseada na proliferação nuclear, como você colocou. Esse “novo” norte que está sendo exposto aos países que se opõem à ordem internacional atual pode, a meu ver, facilmente desencadear uma nova era de corridas militares que fatalmente não será benéfica para ninguém. E a situação atual serve, querendo ou não, como um grande incentivo a países como o Irã (e também outros, que aceitam as regras do jogo mas adorariam mudá-las) para continuarem (ou começarem) com seus programas militares centrados em armas nucleares.

    Como você bem colocou, a superioridade militar americana é gritante, e isso por si só, na minha opinião, já poderia caracterizar uma afronta de qualquer país como insana. E é aí que está um outro grande problema: essa centralização do poder na mão de uma pessoa e “divinização” da mesma (se é que me deixo a entender..).

    Posso estar pensando muito simplificadamente aqui, e talvez esteja, mas a história nos mostra diversos exemplos de loucuras causadas por esses fanatismos. Hitler é o principal, eu diria. Eu li um artigo há alguns dias de um norte-coreano que conta que é impossível você crescer na Coreia do Norte sem literalmente >odiar< os EUA, dado a forte propaganda e manipulação da população. Segundo o mesmo, ele cresceu com a idéia de que americanos são a pior coisa do mundo e tinha medo deles. É claro que isso é apenas um exemplo, e pode até ser manipulado, mas a quantidade de notícias que corroboram com tal cenário é imensa, tanto da imprensa "ocidental" como de organizações supostamente neutras politicamente. Infelizmente não estou encontrando o link para colocar aqui.

    Mas voltando ao meu ponto: eu não descarto a possibilidade desse jovem Kim Jong Un querer entrar para a história lutando pelo seu ideal, coerente ou não, a custa de milhões de vidas. E isso me preocupa.

    Mas enfim, só queria colocar essa questão de quando um regime passa a ser muito centrado em uma pessoa e os riscos que isso, na minha opinião, pode representar.

    Gostei bastante do seu texto!

    • Rafael Soares

      http://www.nknews.org/2013/03/i-used-to-have-nightmares-about-americans/

    • Thomas Conti

      Olá Soares, primeiramente agradeço o excelente comentário!
      De fato, a ‘divinização’ pessoal do regime norte-coreano é um problema inegável, gera essa instabilidade de ninguém poder ter certeza do que vai acontecer.
      Da parte da propaganda, receio que a guerra seja apenas uma das facetas do ódio. Não duvido nada que o regime autoritário da Coréia do Norte tenha grandes programas de incitação de ódio aos EUA, já que isso é de interesse do regime e seu totalitarismo possibilita esse controle.
      Infelizmente, contudo, os Estados Unidos também não está isento dessa incitação, ainda que seja por uma via distinta: grande parte do efetivo militar dos EUA são soldados voluntários, de modo que caso o governo não consiga convencê-los da ‘justeza’ dos assassinatos que cometem, eles podem deixar o exército e enfraquecer por dentro o alcance do poder americano.
      Se por um lado os EUA não tem um culto a um líder, também por outra via eles têm um enorme patriotismo representado na ideia dos ‘defensores mundiais da liberdade e da democracia’. Essa ideia que de natural não tem nada, é também colocada na cabeça das crianças desde pequenas em aulas de história e outras fontes culturais. As ‘versões para adultos’ do conto são bem exemplificadas por Hollywood: até 1990 os vilões eram comunistas/soviéticos, depois começaram a aparecerem os chineses, após 2001 eram de origem no oriente médio e agora já começaram a aparecer os vilões norte coreanos (Red Dawn (Amanhacer Violento)).
      Nesse ambiente hostil, vemos margem para o conhecido argumento de que a necessidade de eleger políticos a cada 4 anos também colabora para a incitação do ódio no caso de um país muito militarizado como os EUA: o político que não for enérgico nas respostas militares ou for visto como responsável pelo declínio da liderança americana dificilmente conseguirá se reeleger. O próprio Obama sofreu com isso em seu primeiro mandato ao iniciar a retirada sem vitórias do Iraque, e só se safou ao vencer no assassinato do Bin Laden.
      Como você, acho difícil não ter preocupações e perspectivas sombrias num ambiente desses. Sorte nossa de não vivermos num país que se dedique tanto a discursos militares de ódio!
      Agradeço de novo o comentário inteligente e muito bem escrito, Soares! Abraços

  2. Felipe Cioffi

    “Daí grande parte da preocupação dos EUA em responder energicamente à crise da Coréia do Norte. Sendo as ameaças verdadeiras ou não, o país se vê na posição de justificar e defender a presença de suas bases na região, estratégicas para que a China não cria um grande núcleo de alianças regionais.”
    no ponto, thomas!

  3. A Síria entre Putin e Obama - entendendo os problemas | Blog Thomas Conti

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