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“A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.“ – Art. 2.º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, tal como estabelecido pela Revolução Francesa, em 1789.

A Opressão do Cotidiano

Imagine-se na seguinte situação:

Todo dia você deve trabalhar por 8 horas. Todo dia você perde de 2 a 3 horas se deslocando indo e voltando do trabalho. Durante seu horário de almoço de no máximo duas horas, não há tempo suficiente para almoçar em casa e você acaba ficando nas redondezas de onde trabalha. Todo dia você perde por volta de meia hora entre acordar e se preparar para o trabalho, comer, vestir-se, etc. Quando chega em casa, cansado e exausto, também dedica pelo menos meia hora para descansar um pouco da hora do rush da tarde e jogar uma água no corpo. Agora some todo esse tempo:

8h+2,5h+2h+0,5h+0,5h=13,5h

Esse seria o tempo originalmente seu que você acaba abrindo mão devido ao trabalho. Se subtrairmos ainda as 8 horas de sono diário, temos 21,5 horas do dia em que não há grande liberdade sobre o que será feito. Sobram 2,5 horas por dia de tempo mais ou menos livre, que deve ser capaz de englobar os cuidados da casa, dos filhos, do marido ou esposa, dos irmãos, de entretenimento, de buscar novos cursos profissionalizantes para ascender no trabalho e, veja só, em tese é nesse curto espaço de tempo que também deveria-se dar um jeito de fazer nossas insatisfações serem ouvidas e expressar nossa cidadania por meio da política.

Mas ei, ninguém é de ferro! Depois de todo esse tempo na tensa labuta, as horas livres tornam-se inestimáveis para nos recompor do desgaste, e quem em sã consciência vai aguentar discutir política ou ir pras ruas se rebelar depois de tudo isso? O normal é assistir algo leve, bater um papo sem compromisso, desabafar sobre o trabalho, e depois dormir. Porque o dia seguinte está logo aí e é necessário acordar cedo.

Essa situação está longe de imaginária. São na verdade os contornos da vida de um trabalhador médio na cidade de São Paulo – com o agravante de 72% deles sequer gostarem do trabalho que realizam. Um trabalhador da periferia da cidade pode perder ainda mais tempo em seu trajeto de trabalho, chegando a brutais 4 horas perdidas. No nosso cálculo, nessa situação ele teria apenas 1 hora livre por dia da semana.

O icônico “cidadão de bem”, trabalhador, honesto, dedicado, seguidor da lei, se ele existe, tem outra “qualidade”: não grita.

Não faltam motivos para protestar

Como colocar o trabalhador nas ruas, se o trabalhador não tem tempo? Como os paulistanos equacionam esse problema? Assim como no caso da Turquia que discutimos semana passada, a situação acaba tendo que chegar em um nível extremamente crítico para que haja um movimento de massa espontâneo. Mas é evidente que, nas condições que descrevemos, o stress e a insatisfação são generalizados durante o ano inteiro, todos os anos… como os paulistanos, tradicionalmente mais conservadores, têm equacionado esse problema?

Duas “soluções” aparecem: em uma delas, quem por qualquer motivo tem as condições físicas e o tempo disponível para ir às ruas, tomam-nas para protestar e mostrar sua indignação, contando com amplo apoio da população que não pode estar lá; na outra, parte não desprezível dos “trabalhadores” expressam seu ódio pelos manifestantes, caracterizam-os como vândalos e baderneiros, e que fariam melhor ao país se fossem trabalhar.

ordem x caos em sao paulo blog thomas conti

Evidentemente a segunda opção não é opção alguma. Pelo contrário, é um grande retrocesso, mas que vem se repetindo aos montes desde quinta feira. Faz algum sentido as pessoas que já perderam qualquer possibilidade de se expressarem politicamente na vida real atacarem aqueles que conseguem?

O ódio ao outro como expressão das próprias fraquezas

O psicanalista Carl Jung foi um dos primeiros a abordar esse tipo de problema. Segundo Jung, o ser humano, aterrorizado pelas consequências que poderiam advir do conhecimento de suas próprias características negativas, adota um comportamento de proteção: ao julgar e taxar as ações da outra pessoa, ao invés de apenas observá-las, projeta no outro a sua própria raiva e culpa. Para Jung, a projeção defensiva funciona como um espelho entre o Ego e a personalidade subconsciente. A característica negativa que foi deserdada acumula suas energias no Ego e será refletida na experiência diária da pessoa. O que você resiste, persiste. A ideia é de que as projeções são sinais de aviso de que alguma coisa não está resolvida dentro de você mesmo. Jung dizia que se você não sabe e domina os aspectos mais sombrios do seu ego, você projetará seus próprios elementos negativos reprimidos nas outras pessoas.

E na minha opinião é exatamente isso que vemos na oposição aos movimentos de São Paulo. Pessoas que não se deram conta de que não são mais capazes de se expressar, seja porque não conseguem, seja porque já até perderam qualquer vontade ou não vêem a necessidade de sair do seu cotidiano, jogam para o outro, os manifestantes, a raiva dessa realidade sombria que é reprimida diariamente.

Não é visto como um problema a pessoa não ter mais sonhos de mudança para cultivar. Nessa visão cega, o problema é que alguns ainda querem ter um mundo melhor.

Lições que o governo de SP consegue ensinar: como depredar a cidadania

Hoje os ânimos estão aquecidos com a manifestação que está acontecendo, mas devemos lembrar que quinta-feira passada foi um dia de luto.

Não basta toda sorte de restrições que o nosso dia a dia impõe sobre a nossa liberdade política, não basta a frugalidade da cerimônia do voto que se repete a cada dois anos – a expressão única da livre-escolha de nosso opressor predileto. Ainda assim, vez ou outra, algumas pessoas vão acabar exercendo a cidadania que carregam por direito conquistado. A estas, balas de borracha, cacetes e bombas de gás lacrimogênio são os remédios que nossa democracia receitou – e a tropa de choque cuidou para que os pacientes fossem “devidamente” tratados.

O quarto direito fundamental da liberdade segundo a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão é simplesmente ignorado pelas autoridades, cuja incompetência é tamanha que preferem tentar convencer as pessoas de que protestar é errado do que tomar a revolta como o que ela é: o sinal vivo da própria incompetência das autoridades em fazer o que foram eleitos para fazer. É possível encontrar quem pense que não há nada demais em jogo, quando na verdade direitos elementares estão sendo violados.

Como sabiamente afirma O Rappa, “paz sem voz, não é paz, é medo”.

Em outras palavras, todo esse movimento apenas porque algumas pessoas ainda não entenderam direito a ideia que lhes é imputada sutilmente todos os dias: de que o bom cidadão tem que permanecer calado. Que “errado” da parte deles…

Lições que a população consegue ensinar: a Revolta do Vinagre

brasileiros depredacao cidadania revolta vinagre manifestacao junho 2013 blog thomas conti

Manifestantes na marcha de 17/06 pela redução da tarifa. Acompanhe ao vivo.

Ainda bem que não entenderam! Que continuem assim! São Paulo é uma cidade onde a violência é diária, uma cidade cuja estrutura tolhe a energia de seus habitantes, onde as forças públicas são sim as maiores depredadoras do patrimônio público. Seu bem maior, os próprios cidadãos que compõem o público, são atacados diariamente: nos dias “bons” são atacados pelo descaso – descaso na saúde, educação, transporte, trabalho -; nos dias que conseguem mostrar sua insatisfação, são atacados com bombas de gás.

Pelo direito de resistir: que continuem os protestos!

Tenho 27 anos, possuo Mestrado e Graduação em Economia e sou doutorando em Economia pela Unicamp. Trabalho como professor e assistente de coordenação na Especialização em Direito e Economia (Law & Economics), também na Unicamp. Meu objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

4 Responses to “Brasileiros se levantam contra a depredação da sua cidadania”

  1. dante

    q bosta.. começou bom, depois se perdeu. Em lugar de enfatizar o movimento e as qualidades de quem está revoltado com o governo, ficou falando mal dos “trabalhadores” que são contra as manifestações. Você escreve bem, mas se perde. Foque no fundamental.

    • Thomas Conti

      Olá dante, busquei escrevei com o que achei que poderia melhor contribuir. Já existe uma infinidade de artigos falando simplesmente das qualidades dos revoltados (como vc sugeriu que eu fizesse) e diversos outros artigos limitados à crítica aos reacionários. Acharia redundante escrever apenas para repetir o que já foi dito e ademais no mesmo formato. Tentei falar um pouco dos dois e mostrar como esse segundo grupo não percebe que estão sendo tolhidos de um direito fundamental. Se o artigo não lhe agradou, paciência. Valeu pelo comentário, abraços.

  2. Jessica

    Parabéns pelo artigo! Gostei muito das colocações, principalmente por inovarem em relação aos demais textos que já vem sendo escritos (cada qual, é claro, com infinitas qualidades!).

    Acho primordial se frisar, como você fez, a importância que um movimento como esse tem para romper a rotina que massacra os indivíduos no dia à dia. As pessoas estão habituadas a serem tratadas como nada, como pouca coisa, como simples engrenagens, incapazes de pensar e se colocar mesmo diante de questões que dizem diretamente respeito a elas.

    Essa negação do “eu”, num sociedade extremamente individualista, parece contraditória.. mas não é.. porque no fundo, o individualismo se coloca apenas como mais um traço para que, de maneira “natural”, as pessoas não compartilhem experiências, espaços, reivindicações.

    Discordo veementemente da opinião do Dante, acima. O movimento está se tornando algo midiático, um espetáculo, e o mesmo vale para muitas das análises que vem sendo feitas. Seu texto é sincero e traz um ponto de vista que precisa ser dito em alto e bom tom: é um movimento para direitos básicos.

    E que direito maior que ser dono de seu próprio tempo?

  3. Luz13

    Vamos manifestar, mas com lucidez! Gostei do blog. Aline Da Cidade das Pirâmides, em meio a uma passeata de estudantes, mas sem vandalismo!
    Vejam! http://www.youtube.com/watch?v=62b3f66OP60&feature=youtu.be

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