A fixação francesa com as vestes muçulmanas não vem de agora, na tentativa de controle sobre o “burkini”. Durante a Guerra de Independência da Argélia (1954-1962), as autoridades coloniais francesas organizaram espetáculos públicos de mulheres argelinas queimando seus véus. Entre 1957 e 1960, 2 milhões de argelinos foram removidos das vilas rurais onde viviam e levados a campos de contenção onde recebiam registros de identidade. As mulheres eram obrigadas a retirar o véu ao se registrarem. Nesse conflito, o véu tornou-se crescentemente um símbolo de afirmação da identidade nacional para muitas mulheres da Argélia, cultura que se manteve após a guerra.
Para as autoridades francesas, a remoção dos véus era permeada pelo imaginário de “trazer a liberdade” para um país atrasado. Por um lado, era um meio de legitimar as “boas intenções” da guerra diante do público francês. Por outro, era militarmente útil ao ajudar a distinguir mais facilmente quais mulheres argelinas apoiavam ou não a França em um contexto onde 20% das forças de resistência era composta por mulheres. A política tinha apoio de sociólogos e antropólogos franceses.
O registro dessas atividades ficaram por conta do fotógrafo francês Marc Garanger. Arregimentado para fazer o registro das pessoas que chegavam aos campos de contenção franceses, depois da guerra tornou-se um crítico da guerra contra a Algeria e da colonização francesa.

Um dos campos de contenção do exército francês na Argélia, onde civis eram confinados sob guarda militar. Foto do acervo de Marc Garanger.
Como em toda guerra, casos de abuso e estupro são recorrentes, levando ao medo generalizado. Em uma das fotos mais famosas que tirou, Garanger mostra uma muçulmana sem o véu assutada protegendo seu filho em 1960:
Em outras palavras, um passado de colonização, racismo e imposição cultural de longa data são os antecedentes dessas políticas explícitas de discriminação que vemos a França praticar hoje. A colonização francesa da Argélia começou em 1827. As leis de proibição do uso de véus em solo francês foram avançadas em 2003-2004. Essa é uma das vias históricas que levou até a emblemática foto dos dias de hoje:
–Para saber mais–
Na parte de livros, para uma história de como a guerra foi representada na frança, ver Dine, P. D. (1994). Images of the Algerian War: French fiction and film, 1954-1992. Oxford University Press. Já para uma história dos franceses que se opuseram à conduta da França nessa guerra, ver Evans, M. (1997). The memory of resistance: French opposition to the Algerian War (1954-1962). Berg Publishers. Para uma referência clássica sobre a história geral do conflito, ver Talbott, J. E. (1980). The war without a name: France in Algeria, 1954-1962. Alfred a Knopf Inc.
[Obs: eu traduzi a frase do pôster a partir do inglês e não diretamente do francês. Se houver algum erro na passagem direta do francês para o português, por favor me avisem que eu edito o post.]
Mesma raiz de problema do movimento “orientalista”; achar que só faz sentido entender outra cultura pelo viés da “civilização europeia”. Ótimo post para aqueles que têm memória curta.