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Donald Trump sequer tomou posse oficialmente como presidente dos Estados Unidos e já está causando ansiedade nas relações diplomáticas e nos mercados internacionais. A título de curiosidade histórica e talvez — apenas talvez — algum aprendizado para o presente, gostaria de compará-lo brevemente com Wilhelm II, um imperador volátil com sede de poder que foi motivo de tumulto nas relações diplomáticas da Alemanha de 1888 a 1918. Não pretendo levar muito a fundo a comparação, quero apenas traçar paralelos para destacar um possível problema contemporâneo. Espero que achem interessante.


Donald Trump e a Diplomacia de Redes Sociais

Ao contrário dos presidentes americanos que o antecedem, Trump não é nada reservado sobre o que publiciza na internet. Não só isso, como não parece ter freios claros sobre o que e como fala pelo seu twitter oficial. Como podemos ver no Google Trends, há uma explosão de interesse no twitter do futuro presidente:

 

 

Aquele aumento em novembro de 2012 foi quando Trump se indignou com a vitória de Obama nas eleições. Já o maior pico aconteceu há alguns dias atrás, quando elogiou a resposta russa à sanção de Obama expulsando diplomatas russos. Ontem tivemos mais uma leva dessas declarações de política externa: “Coréia do Norte acaba de afirmar que está no estágio final de desenvolvimento de uma arma nuclear capaz de alcançar partes dos EUA. Não vai acontecer!”


Para não sair demais da rotina, Trump não poderia deixar de aproveitar o momento para cutucar a China: “A China tem tomado quantidades gigantes de dinheiro e riqueza dos EUA em trocas injustas, mas não vai ajudar com a Coréia do Norte. Bom!”

Wilhelm II e o caos diplomático das décadas que antecederam a Primeira Guerra

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Com as devidas ressalvas, essa dinâmica me faz lembrar dos problemas que o Império Alemão e o sistema internacional de Estados passava ao lidar com o Cáiser Wilhelm II há mais de 100 anos atrás. Wilhelm governou a Alemanha por trinta anos (1888-1918), época que imperadores conviviam com uma crescente burocracia civil de ministros e diplomatas. Nesse contexto, ademais sem apoio de instituições internacionais fortes, era difícil saber quem exatamente era responsável por definir a política externa de um país. Após dispensar Bismarck em 1890, o jovem imperador ganhava influência para mudar os rumos nacionais. Como ele exerceu essa influência não foi de forma tranquila e é mais duvidoso que tenha impactado positivamente o país do que se ele foi um importante responsável por diversos conflitos internacionais — incluindo a Primeira Guerra Mundial.

As peripécias de Wilhelm II são realmente impressionantes. Como reconstitui o historiador Christopher Clark em seu fantástico e recente livro sobre os antecedentes da Primeira Guerra:

Essa última área — a exposição não autorizada de ideias políticas não sancionadas — é aquela em que o cáiser foi mais criticado, tanto por contemporâneos como por historiadores. Não pode haver dúvidas quanto ao tom e ao conteúdo estapafúrdios de muitas das comunicações pessoais do cáiser em telegramas, cartas, anotações marginais, conversas, entrevistas e discursos sobre temas de política externa ou interna. Seu volume excepcional já é notável: o cáiser falou, escreveu, telegrafou, anotou e arengou mais ou menos continuamente durante os trinta anos de seu reinado, e uma gigantesca parcela dessas articulações foi registrada e preservada para a posteridade. Algumas eram de mau gosto ou impróprias. Dois exemplos, ambos ligados aos Estados Unidos, podem ilustrar essa afirmação. Em 4 de abril de 1906, o cáiser Wilhelm II estava em um jantar como convidado da embaixada dos Estados Unidos em Berlim. Durante uma animada conversa com seus anfitriões americanos, ele falou sobre a necessidade de conseguir mais espaço para a população alemã, que crescia rapidamente; na época de sua ascensão ao trono, ele disse ao embaixador, a população andava pelos 40 milhões de pessoas, mas agora estava em torno de 60 milhões. Isso era bom, em si, mas a questão da alimentação se tornaria premente nos próximos vinte anos. Por outro lado, grandes porções da França pareciam subpovoadas, necessitando de desenvolvimento; talvez conviesse perguntar ao governo francês se ele se importaria de recuar sua fronteira para oeste a fim de acomodar o excesso de alemães. Essa tagarelice vazia (que, podemos presumir, era para ser engraçada), foi registrada a sério por um de seus interlocutores e comunicada a Washington no próximo malote diplomático. O outro exemplo vem de novembro de 1908, quando
houve ampla especulação na imprensa em torno de uma possível guerra entre os Estados Unidos e o Japão. Estimulado por essa perspectiva e ávido por cair nas graças da potência atlântica, o cáiser mais que depressa enviou uma carta ao presidente Roosevelt oferecendo-lhe — dessa vez a sério mesmo — um corpo do Exército prussiano para ficar a postos na costa californiana. (Clark, 2014, Cap. 4)

Mas Wilhelm II não era apenas desastrado nas formas de agir. Também lhe faltava coerência interna nos objetivos que buscava, por vezes exigindo um esforço extraordinário dos diplomatas alemães para corrigir suas alegações. Isto é, isso quando os próprios diplomatas também não sabiam exatamente o que estava ocorrendo:

Em fins dos anos 1890, o cáiser entusiasmou-se com um projeto para criar uma Neudeutschland (Nova Alemanha) no Brasil, e “exigiu impacientemente” que a migração para essa região fosse incentivada e aumentada o mais depressa possível. Nem é preciso dizer que isso não deu em nada. Em 1899, ele informou a Cecil Rhodes que pretendia fazer da Mesopotâmia uma colônia germânica. Em 1900, na época do Levante dos Boxers, o cáiser propôs que os alemães enviassem um corpo do Exército completo à China com o objetivo de repartir o país. Em 1903 ele declarava mais uma vez que a “América Latina é o nosso alvo!” e exortava o Estado-Maior do Almirantado — que pelo visto não tinha nada melhor para fazer — a elaborar planos para uma invasão de Cuba, Porto Rico e Nova York, os quais eram uma total perda de tempo, já que (entre outras coisas) o Estado-Maior jamais concordou em fornecer os soldados necessários. (Clark, 2014, Cap. 4)

Wilhelm continuaria a exercer um papel desestabilizador nas relações externas da Alemanha até a eclosão da Primeira Guerra Mundial. As mudanças de estratégia alemãs ajudaram a reforçar a aliança entre a França e o Império Rússo e, posteriormente, a intervenção do Império Britânico nos conflitos do continente contra a Alemanha.


Breves Comentários

Ok, o exemplo é de mais de cem anos atrás. É claro que hoje temos instituições nacionais e multilaterais sólidas responsáveis por manter os canais de comunicação abertos e diminuir mal-entendidos, algo completamente inexistente para a época. No entanto, o Departamento de Estado americano já está preocupado com a possibilidade do presidente realmente ditar a política externa, reverter posições diplomáticas de décadas de um dia para o outro ou diminuir a credibilidade da diplomacia americana diante da comunidade internacional. O modo de operação de Trump está impactando inclusive a política interna. Hoje (03/01/2017), seguindo as críticas da população, Trump freou até mesmo a tentativa do seu próprio partido de extinguir o Conselho de Ética da Câmara — e o fez com apenas um tweet. Lembro novamente de Wilhelm II, que “Ora suas intervenções contrariavam a direção da política oficial, ora a endossavam; às vezes passavam dos limites e viravam uma paródia grosseiramente exagerada da posição oficial.” (Clark, 2014, Cap. 4).

Embora muito heterodoxo, há quem enxergue um método de negociação por trás da forma de se comunicar empregada por Trump (algo que o próprio Trump também defende). Qualquer que seja sua inteligência pessoal, os meios empregados por ele causarão um dano às instituições americanas ou até internacionais difícil de ser compensado. Um dos papéis funcionais das instituições é justamente reduzir a incerteza (Dequech, 2001), algo que já é difícil suficiente de realizar na escala mundial sem ter que levar em conta também uma possível “Diplomacia de Redes Sociais” capitaneada pelo presidente do país hegemônico.

É curioso que na época de Wilhelm II um fenômeno similar também acontecia, consequência do impacto dos jornais. O crescimento exponencial do número total de jornais impressos com suas diferentes linhas editoriais tornava a sinalização de intenções entre países muito difícil, dificultando saber quem estava traduzindo “realmente” a direção da política externa (Conti, 2015, Cap. 3.4). Talvez os métodos de Trump venham a ser encarados com o mesmo receio: o Serviço Secreto Americano chegou a considerar se o presidente deveria sequer ter um perfil ativo nas mídia sociais. A depender do tamanho do estrago, talvez até o recém-criado Índice de Incerteza de Política Econômica de Baker et al. (2015) consiga captar uma mudança nos padrões anteriores.

De toda forma, para quem acompanha jornais americanos, certamente não faltará notícias começando com “Trump Tweets (…)” — a menos que ele tenha que abrir mão das redes após tomar posse. Por hora, tudo indica que os jornais terão que alocar uma pessoa em tempo integral para acompanhar o tweeter do presidente: uma busca  pelo termo “Trump tweets” hoje no Google retorna nada menos que 2,57 milhões de resultados.

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Referências:

Baker, S. R., Bloom, N., & Davis, S. J. (2015). Measuring economic policy uncertainty (No. w21633). National Bureau of Economic Research.

Clark, C. (2014). Os sonâmbulos: como eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Editora Companhia das Letras.

Conti, T. V. (2015). Guerras Capitais – um estudo sobre as transformações na competição econômica e na rivalidade política internacional: a Hegemonia da Grã-Bretanha, os Estados Unidos e a Alemanha de 1803 a 1914. Dissertação (Mestrado). Instituto de Economia, Unicamp, Campinas, 2015. Disponível em: <http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000946784>.

Dequech, D. (2001). Bounded rationality, institutions, and uncertainty. Journal of economic issues, 35(4), 911-929.

Thomas Victor Conti tem 27 anos, possui Mestrado e Graduação em Economia, é doutorando em Economia pela Unicamp. Trabalha como professor e assistente de coordenação na Especialização em Law & Economics da Unicamp. Meu objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

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