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A pesquisa original do IPEA foi divulgada no dia 27 de março, e da sua publicação até a publicação da errata no dia 4 de abril a repercussão dos resultados foi enorme, gerando indignação por toda parte. Há quem diga que, com a publicação da errata, o grupo que criticava os resultados da pesquisa “estava certo”. Fato é que ninguém poderia ter antecipado que um dos maiores institutos de pesquisa do país teria invertido duas colunas de uma planilha: até o dia 4, Felipe Moura no site da Veja afirmava que o resultado devia-se à pobre capacidade de compreensão dos brasileiros de baixa escolaridade entrevistados; depois, começou a ser levantado o ponto do viés de amostragem da pesquisa, que eu mesmo publiquei um texto explicando e comentando… mas o erro que acabou sendo divulgado foi fora da previsão de qualquer um, e aparentemente os críticos da pesquisa parecem muito felizes em se vangloriar de “estarem certos”, mesmo não tendo acertado absolutamente nada do motivo da errata.
dados ipea errata polemica 2014 pesquisa violencia mulheres blog thomas conti latuff

No quadro abaixo podemos ter uma visão sintética de quão ‘gigantesco’ foi o impacto da errata do IPEA sobre o quadro geral da agressividade à mulher no país (clique na imagem para vê-la em tamanho ampliado):

pesquisa ipea errata antes e depois percepçao social agressao a mulheres 2013 2014
Uma em cada quatro pessoas segue concordando que merecem “ataques” as mulheres que mostram o corpo. Duas em cada três pessoas parecem concordar que caso a mulher apanhe e continue com o marido é porque gosta de apanhar. 58,5% segue concordando que o comportamento da mulher pode fazer diferença para a ocorrência de um estupro. Alguém consegue ver esse quadro como uma descrição animadora em qualquer sentido? Calma que fica pior, vamos atentar para o quadro mais importante de todos (fonte dos dados aqui):
panorama dos casos de estupro no brasil 2012 ipea pesquisa violencia mulher 2014 errata
Claro que, depois de ver um quadro aterrador como esse, onde não há qualquer viés de pesquisa, interpretação, nada, parece-me necessário compartilhar também essa pérola da hipocrisia e do cinismo (fonte: sessão de blogs da Veja):
felipe moura veja pesquisa ipea errata cinismo hipocrisia estupro mulheres

Não sei quanto a você, caro leitor, mas de minha parte considero mais importante fazer o certo – passar uma visão fidedigna da realidade para o público – do que “estar certo” no sentido infantil do “eu te disse, não disse?” (ainda pior quando não levantara nenhum argumento parecido com o que no final mostrara-se no erro).

Enfim, não quero que este texto passe nem perto desse debate de baixíssimo nível. Vamos seguir tentando qualificar os pontos de tensão e o que deveríamos tirar de toda essa polêmica.

“Achamos que somos um bando de gente pacífica cercados por pessoas violentas.”
– Leandro Karnal, historiador brasileiro.

Como vimos na Parte IV do meu post anterior, as ocorrências de estupro não estão limitadas à determinada faixa de renda, escolaridade ou cor. São um fenômeno geral e disseminado na sociedade brasileira, onde 50% dos estupros ocorrem dentro da própria casa da vítima, e na maioria dos casos por pessoas conhecidas dela.

A questão portanto é o que teríamos a ganhar ignorando esses fatos, e que tipo de ação prática seria condizente com o tamanho do problema. O pressuposto dos que tanto criticam e se incomodam com o movimento feminista é de que, se existe de fato machismo e violência contra a mulher na sociedade (por incrível que pareça, há quem discorde disso), essas coisas ou estão sob controle ou para serem resolvidas dependem apenas e unicamente do aumento das penas previstas em lei para casos de estupro. O problema é que, como não deixa dúvida o gráfico 2 deste post, apenas menos de 10% do total estimado de casos de estupro que ocorrem no país são sequer denunciados. Ou seja, mesmo com punições severas e agilidade do judiciário a vasta maioria dos casos que ocorrem anualmente continuaria passando impune. Como já havia colocado no post anterior, as vítimas sabem que existem barreiras sociais impostas a elas durante o processo de denúncia, barreiras que envolvem os olhares de conhecidos e até da família, formas diversas de interiorização da culpa (como não ter se “comportado de maneira adequada”) e como pode ser tratada pela sociedade durante e depois da delação. É por esse e outros motivos que as feministas e pessoas preocupadas com o problema da violência contra as mulheres no Brasil insistem num lema tão simples: a culpa e a causa do estupro é sempre do estuprador, não importa a situação.

Parece pouco? Não é. A pressão contra as mulheres é forte e não é incomum que ao ver uma mulher tendo a coragem de denunciar seu agressor outras decidam também verbalizar as agressões que sofreram, por entenderem que serão apoiadas em sua decisão e os julgamentos da sociedade serão a seu favor, não a favor do agressor.

São esses fatos simples e diretos que tornam tanto mais hipócrita os gritos infantis de quem não quer aceitar a realidade de que também faz parte desse país extremamente violento chamado Brasil, e que as pessoas violentas não necessariamente estão concentradas “lá longe”, mas na verdade podem ser seus vizinhos bem educados ou até seus familiares.

Pior ainda, diante da divulgação de 50.617 casos denunciados de estupro em 2012 e 527 mil casos estimados de terem acontecido, há quem ainda queira dizer que o ponto mais importante de toda essa polêmica seria o indício de politização e decadência do IPEA por causa do erro que cometeu ao trocar as colunas de dados de duas questões. Tenho sérias dúvidas de que alguém realmente preocupado com o problema da violência contra mulheres deixaria passar um debate nacional sobre o tema para desviar do assunto com especulações, porque não são nada além disso. Pior ainda, há quem questione o Instituto por sequer ter feito pesquisas como essa, pois não seriam de sua competência – afinal, “é evidente” que o interesse em investigar as causas de 527 mil estupros por ano e as agressões sofridas por 50,5% da população brasileira (as mulheres) é um mero detalhe, afinal não teria impacto econômico (adoraria ver alguém tentando provar isso. Comecem pelo dado de que um terço das vítimas sofre de estresse pós-traumático ou transtornos de comportamento que necessitam de cuidados profissionais, e que 4% delas contraem doenças sexualmente transmissíveis ao serem vítimas desse crime; parece-me fácil concluir que os serviços médicos públicos e privados são afetados por esses números).

Reiterando o ponto principal: a sociedade como um todo não tem absolutamente nada a ganhar ignorando fatos básicos da violência presente em sua realidade cotidiana, no caso evidenciados pelas terríveis estatísticas de violência contra a mulher e os indícios nada desprezíveis de como certos julgamentos da sociedade não colaboram para a solução do problema. Até que fique claro para todos que nenhuma mulher, sob nenhuma circunstância e independentemente de qualquer comportamento, merece ser estuprada, o movimento #EuNãoMereçoSerEstuprada segue legítimo e não tem motivos para ser abalado pelo cinismo de seus críticos, mais preocupados em obter aplausos de um público específico do que colaborar para que saibamos e combatamos o preocupante problema da violência contra as mulheres no Brasil.


Referências para explicações que dei anteriormente sobre a polêmica do IPEA:

  1. 3.810 pessoas é um número suficiente para estimar a população Brasileira?
  2. O duplo sentido das frases prejudica o resultado da pesquisa ou não?
  3. Existe um problema de amostragem na pesquisa? Aparentemente sim. Quais as implicações?
  4. Que outros dados temos há disposição para pensar o problema da violência contra as mulheres no Brasil? Quais as conclusões?

Tenho 27 anos, possuo Mestrado e Graduação em Economia e sou doutorando em Economia pela Unicamp. Trabalho como professor e assistente de coordenação na Especialização em Direito e Economia (Law & Economics), também na Unicamp. Meu objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

One Response to “Abandono da Razão marca a “Polêmica do IPEA” sobre a violência contra mulheres”

  1. A pesquisa do IPEA sobre as mulheres está errada? Sim,e Não. Entenda. | Blog Thomas Conti

    […] Dois dias depois que publiquei este texto, ficamos sabendo que a questão “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”, que havia obtido 65% de pessoas que concordam total ou parcialmente, estava trocada, e na verdade “”"apenas”"”" (infinitas aspas) 26% pensam assim. POR OUTRO LADO, a questão “Mulher que é agredida por parceiro e continua com ele gosta de apanhar” estava com os resultados errados também, e é ela que 66,5% dos brasileiros concordaram. OU SEJA, permanecem os problemas que discutimos aqui nesse artigo, o problema da violência contra a mulher continua não-superado, muito menos pelas estatísticas. Escrevi um novo artigo sobre a errata e o novo debate em que estamos inseridos, que pode ser lido aq…. […]

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