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Correção carta santander sobre a presidente dilma polemica opiniao
Fontes: (1) Lucro do Santander no Brasil. (2) Taxa Média de Juros para crédito pessoal no Brasil. Demais referências (e outras curiosidades) encontram-se devidamente linkadas ao longo do texto abaixo.

Os Rothschild devem estar se revirando no túmulo, pois chegou o fatídico dia em que os grandes bancos internacionais precisam mandar cartinhas de opinião para clientes se quiserem influenciar na política nacional de um país. Acabou-se o tempo da alta finança reunindo-se com os ministros da Fazenda, com os presidentes dos Bancos Centrais, com o presidente do país, para negociar, chantagear, trocar favores, estabelecer regulações de fachada ou burlar as regulações de verdade. Não, hoje não mais! Hoje os bancos foram reduzidos ao ponto de dependerem até de pessoas que vivem de seus salários mensais (!!!). Como diria um diretor de banco consultado pelo jornal O Globo: “…o caso do Santander foi a gota d’água, porque o texto foi enviado a clientes de varejo, e impresso num extrato. Normalmente, esse tipo de análise é dirigido aos grandes investidores.” Os financistas tremem de terror, qual será o futuro que os aguarda? Talvez daqui alguns anos estejam com seus ternos surrados entregando panfletos na saída dos restaurantes universitários, implorando por alguma alma perdida que queira saber porque os juros devem aumentar para salvar o país, ou como dar aposentadoria aos velhos e saúde pública aos doentes levará a nação à bancarrota.

Evidente que estou sendo irônico – não há absolutamente nenhum sinal de que os bancos estejam perdendo influência nos rumos da sociedade, seja ela a brasileira ou qualquer outra. Estão longe de depender de cartinhas, apostar em apenas um partido político e não em todos eles, ou, o que talvez seria-lhes ainda mais catastrófico do ponto de vista de obter seus bilhões de reais por trimestre, muito longe de se importar com a saúde e rentabilidade financeiras de seus clientes. As reuniões das altas rodas do poder e do dinheiro seguem seu curso normal na formação de diretrizes políticas e econômicas benéficas a eles, todos os partidos grandes recebem doações de campanha do setor bancário, e os clientes seguem sendo empurrados para uma infinidade de opções de endividamento diferentes, promessas ilusórias de crédito fácil que na verdade extorquem impressionantes 232% de juros ao ano no cartão de crédito e 92,6% ao ano no crédito pessoal – sem contar as taxas bancárias e letras miúdas de toda sorte que diariamente fazem a pensão de milhares de aposentados ser debitada diretamente de seus contas através do crédito consignado (nem sempre de forma idônea e com total conhecimento de causa por parte deles).

Mas em um jogo martelado para tornar-se apenas de dois jogadores, quem vai deixar passar a oportunidade de fazer uma crítica fácil ao outro lado?

É o que parece acontecer, por exemplo, com a própria presidenta do país. Em sabatina pública, como consta no artigo do Valor Econômico, diz ela: “Eu acho que é inadmissível para qualquer país, principalmente um país que é a sétima economia do mundo, aceitar qualquer nível de interferência de qualquer integrante do sistema financeiro de forma institucional na atividade eleitoral. Isso é inadmissível.”

O que essa frase quer dizer? Concretamente, nada. É um grito no ar, na esperança de mostrar boa fé e conquistar a simpatia de alguns eleitores e instigar a militância política na base do partido, algo que sempre foi mais fácil de se fazer opondo-se a um inimigo caricaturesco fácil de odiar – como um grande banco ou o “mercado”, ou os “políticos corruptos” alvo preferido da direita nacional, corrupta -, do que debatendo seriamente o plano político para o país nos próximos quatro anos, algo que seria entendiante para quase todos os ouvintes.

Na outra ponta do espectro político, uma infinidade de pareceres de “especialistas” argumentando como o relatório do banco era um relatório técnico visando dar a melhor orientação possível a seus clientes. Alguns, mais radicais, ficaram inconformados e se solidarizaram com o pobre analista que foi demitido por ter escrito e enviado o relatório – “Mas ele só disse a verdade e foi demitido! Ditadura!“, bradam, histéricos.

Senhoras e senhores, devemos ser honestos e admitir, antes de qualquer divergência política que possamos ter, que o relatório enviado pelo banco era uma merda de relatório. Pessimamente escrito, faltando qualquer tipo de dado, número, projeção de rentabilidade – qualquer coisa realmente técnica. Tão ruim que, na verdade, provou-se inclusive plagiado. Se isso é o que os tais especialistas chamam de “relatório técnico”, eles estão acostumados com um nível tão parco de conhecimento técnico que nem deveriam ser chamados de especialistas no assunto, pra começo de conversa. Nem na graduação vi alguém entregar um trabalhinho de disciplina redigido com tanta falta de cuidado quanto esse analista do Santander foi capaz de fazer, e ainda com coragem de enviá-lo para um grupo grande de gente endinheirada. Mesmo que o texto não tivesse gerado controvérsia política, a meu ver estão mais que certos em demitir o sujeito: um péssimo analista e péssimo vendedor, sem tato para o marketing e as relações públicas da instituição, sob quaisquer critérios.

Mas é tempo de eleição e qualquer brecha para atacar o adversário, por menor e mais incoerente que seja ela, será utilizada. Enquanto a esquerda compartilha a carta do Santander tomando isso como forma de provar e atacar a grande influência das finanças na política – como um cão que corre atrás de um carro em movimento -, a direita compartilha a reação da presidenta, jurando de pé junto e com toda a autoridade que vivemos num estágio avançando de um plano comunista e que o interesse dos bancos e da propriedade privada no país corre sério risco caso o PT continue no poder (alguém ainda lembra das quedas na bolsa e da crise cambial de 2002? [Refresco Um, pág. 8, 11 e 15] e [Refresco Dois, pág. 41-42] ).

Como diria Slavoj Zizek, a ideologia não forma apenas o mundo em que vivemos, mas também as formas erradas que imaginamos enxergar para escapar desse mundo – quando sonhamos uma via de escape, na maior parte das vezes estamos apenas reproduzindo esse mesmo mundo através das lentes dessa mesma ideologia. Talvez, como ele diz, nossa sociedade atual só consiga tolerar sua vida através de “mentiras benevolentes” que tornam a realidade suportável. Nesse contexto específico da carta do Santander, embora no cotidiano todos estejam fartos de saber do tamanho poder dos bancos na economia (quando vamos pagar as taxas e juros bancários, perder horas na fila, etc) e na política brasileira (doações para campanhas ou corrupção direta), a força da ideologia que respiramos diariamente aparece na facilidade com que essa realidade é sistematicamente deixada de lado em favor de duas representações extremamente tacanhas do problema real, servindo apenas para fazerem oposição uma a outra, enquanto a assimetria entre o poder bancário e o poder de um cidadão comum se mantém intocada independentemente do resultado do debate, seja ele o público ou o jurídico.

E qual é a mensagem da carta do Santander para o nosso subconsciente? É curta e grossa:
Você, cidadão comum, não manda em nada.

Talvez esse conteúdo seja cruel demais para o assimilarmos de forma direta, daí buscarmos essas representações estranhas, vias de escape para ajudar a nos tranquilizar o sono. Alguns no fla-flu político, outros, como eu, usando do humor ou da ironia, mas de toda forma continuamos infelizmente muito distantes de alterar as estruturas de exploração que estão colocadas.

Tenho 27 anos, possuo Mestrado e Graduação em Economia e sou doutorando em Economia pela Unicamp. Sou professor na Especialização em Direito e Economia (Law & Economics), também na Unicamp. Meu principal objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

5 Responses to “A polêmica carta do Santander ao nosso subconsciente”

  1. Paulo

    Prezado Thomas, li sua matéria de 01/ago em seu blog por acaso, mas a achei muito interessante. Por não concordar com sua abordagem, gostaria de registrar meu ponto de vista. Primeiro: quem leu a carta enviada pelo Santander aos seus clientes pôde verificar que trata-se de uma constatação do atual cenário político/econômico. Segundo: referida carta somente repercutiu da forma como ocorreu, por ser o PT situação neste país. Caso contrário, seria defendido o direito à liberdade de expressão de quem quer que seja, inclusive de um analista de mercado. Terceiro: a carta não foi enviada a quem recebe Bolsa Família, que recebe “salários mensais”, e sim a clientes alta-renda, que possuem perfil investidor e, potencialmente, opinião formada. Por fim, acredito que sua matéria, sim, é muito tendenciosa e visa influenciar. Parabéns! Viva o PT!

    • Thomas Conti

      Paulo, aparentemente o senhor não se deu ao trabalho de ler a matéria inteira. Se a tivesse lido com atenção, veria que fiz críticas à resposta do PT à carta. Sobre o conteúdo desta, sou economista de formação, terminando o mestrado e entrando para o doutorado, e garanto para você que nada “técnico” foi informado na carta. O “analista” só jogou opiniões rasas sobre o assunto, nada além do que poderia ser encontrado nos jornais ou qualquer blog de direita. Um relatório técnico, principalmente para clientes da alta renda, deveria conter uma série de análises estatísticas, cálculos sobre rendimento esperado, principais ativos e aplicações que estão em alta, etc. Os bancos têm um acervo extremamente vasto de dados, analistas e sistemas computacionais para fazer suas projeções de aplicação, de forma alguma o relatório enviado transmite essas informações ao cliente. Talvez para um leigo, ademais um leigo que não tenha costume nem capital para aplicar, o relatório possa parecer “técnico”, mas são só opiniões e pode ter certeza que o Santander sabe disso. O mesmo cenário que a carta relata poderia ser descrito em termos técnicos sem dificuldade, se o analista tivesse competência para tanto.

      • José Henrique

        Cara seu texto e comentário foram muito bons, mas tome cuidado com apelo à autoridade, mesmo com perfil raso de pessoas como o Paulo.

        • Thomas Conti

          Olá José, obrigado pelo toque. Estava irritado com outra coisa e acabei me excedendo, peço desculpas. Não costumo agir dessa forma.

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