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O objetivo deste texto é qualificar o debate levantado pela pesquisa do IPEA sobre a percepção social da violência contra a mulher. Minha intenção é esclarecer os pontos a que os críticos da pesquisa se referiram e a forma como as pessoas estão reproduzindo essa crítica sem saber exatamente do que estão falando, muitas vezes tirando conclusões erradas e precipitadas sobre o assunto.

Dois dias depois que publiquei este texto, ficamos sabendo que a questão “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”, que havia obtido 65% de pessoas que concordam total ou parcialmente, estava trocada, e na verdade “””apenas”””” (infinitas aspas) 26% pensam assim. POR OUTRO LADO, a questão “Mulher que é agredida por parceiro e continua com ele gosta de apanhar” estava com os resultados errados também, e é ela que 66,5% dos brasileiros concordaram. OU SEJA, permanecem os problemas que discutimos a fundo aqui neste artigo, o problema da violência contra a mulher continua não-superado, muito menos pelas estatísticas. Escrevi um novo artigo sobre a errata e o novo debate em que estamos inseridos, que pode ser lido aqui.

ipea veja errada pesquisa mulher entenda o problema
O principal texto de crítica que foi compartilhado por aí e que gerou o “movimento” #EuNãoMereçoSerEnganadoPeloIPEA foi este texto publicado na sessão de blogs da revista Veja. Normalmente os textos dessa sessão geram mais repúdio do que interesse, mas nesse caso o texto transbordou esses limites e foi compartilhado por mais de 30 mil pessoas. Enfim, vamos esclarecer antes como boa parte das pessoas entendeu o texto, para depois irmos ao texto em si, e por fim avaliar criticamente essa pesquisa do IPEA. Fiz o melhor que pude para aprofundar o debate sem me alongar muito, mas para quem não quiser ler tudo apresento abaixo um breve resumo das conclusões, cada um deles com o link para a parte do texto onde a discussão está em detalhe:

Em primeiro lugar, o tamanho da amostra da pesquisa (3.810 pessoas) é um número razoável para estimar a população brasileira como um todo. A ideia de que seria um número pequeno demais vem da falta de conhecimento de estatística e da falta de clareza sobre esse ponto no texto da Veja. Na Parte I deste texto tento explicar o básico sobre isso.

Em segundo lugar, a apresentação dos textos e a forma como estes foram escritos não pode ser considerada errada apenas porque as frases usadas tinham mais de uma interpretação possível. Essa ideia decorre de não saber distinguir a diferença entre uma pesquisa de opinião e uma pesquisa de percepção social – na primeira busca-se saber exatamente o que a pessoa está conscientemente pensando, enquanto na segunda busca-se captar elementos subjetivos de como a pessoa reage diante de uma determinada frase ou situação social. A primeira exige clareza total, enquanto a segunda de partida já pressupõe que as pessoas poderão interpretar coisas muito diferentes de cada situação. Essa diferença é discutida mais a fundo na Parte II deste texto.

Entretanto, há sim um problema na pesquisa do IPEA, chamado de viés de amostragem, que consiste em não ter escolhido uma amostra aleatoriamente, o que é fundamental em estatística para que seja possível afirmar com um grau de certeza alto que a população como um todo apresenta uma opinião distribuída de forma próxima à da amostra. Qual foi esse erro e qual a consequência disso para um entendimento correto da pesquisa será discutido na Parte III.

Por fim, tendo a pesquisa cometido erro na seleção da amostra (e, afirmo, apenas ali), devemos fazer um balanço do que a discussão em torno de seus resultados gerou, e a forma – ao meu ver equivocada – que as pessoas estão interpretando essa questão: a pesquisa ter errado na amostragem não prova, tampouco, e de forma alguma, que é verdadeiro o oposto do que está escrito ali. O que a pesquisa realmente significa é que não podemos tomar seus resultados como válidos para a população em geral. Isso significa também que nada, absolutamente nenhuma evidência indica de que caso a amostragem fosse feita corretamente seria provado o inverso do resultado da pesquisa, de não existir uma culpabilização da vítima em casos de violência contra a mulher no Brasil. Só teríamos como saber exatamente se a pesquisa fosse refeita com a amostragem coletada devidamente, isto é, sem viés de seleção. Até lá, carecemos de dados para afirmar com certeza. Por outro lado, foi divulgada simultaneamente uma outra pesquisa, dessa vez baseada em uma amostra sólida – os registros de casos de estupro dos hospitais públicos e delegacias – que apresenta evidências fortes para afirmarmos que o problema do estupro e da violência contra a mulher no Brasil é de fato gravíssimo e generalizado sem grande distinção de renda ou educação. Essa discussão é feita na Parte IV e final deste texto.

Na conclusão, faço um balanço de como enxergo o conflito gerado por essa pesquisa e como a partir dele podemos tirar conclusões de como deveríamos encarar o problema da violência contra a mulher no país.

Parte 1: o problema da quantidade de pessoas entrevistadas

Em diversas discussões, por toda parte, vi pessoas comentando coisas do tipo: “Eles perguntaram apenas para 3810 pessoas. Você foi perguntado pelo IPEA? Você participou dessa pesquisa? Não? Eu também não! Essa pesquisa não me representa, é uma enganação.” Para entender isso temos que falar um pouco sobre estatística e qual o método que permite fazer esse tipo de pesquisa. A origem desse desentendimento é o obscurantismo do texto do colunista da Veja, que sabidamente não faz críticas diretas ao tamanho da amostra, apenas cita o número em tom de deboche, sem discutir ou esclarecer – caso clássico de uma pessoa que, não sendo um ignorante, mas não querendo propor um debate sério, se faz de omisso e de “rei do senso comum”, deixando para o leitor conduzir-se por si mesmo ao erro.

A teoria que embasa essa pesquisa, assim como qualquer outra pesquisa, chama-se teoria da inferência estatística e vem sendo aprimorada há bem mais de 100 anos. O objetivo dos métodos de inferência estatística é conseguir estimar, a partir de uma amostra, a disposição do que está sendo pesquisado na população como um todo, com um grau de confiança a ser estipulado pelos pesquisadores, mas que normalmente é de 95% – isto é, pode se afirmar com 95% de certeza de que na população como um todo o que vimos na amostra estará disposto de forma muito parecida.

Como isso é possível? Teríamos que entrar nos pormenores da teoria para explicar devidamente o ponto, mas deixaríamos de falar português para falar matematiquês, uma língua de abrangência muito menor. Em síntese, os principais pressupostos que são tomados para garantir os resultados são: (1) a amostra foi selecionada aleatoriamente – isso significa que pegar 3.800 pessoas de uma só cidade, ou de uma só faixa de escolaridade, ou de uma só faixa de renda, ou de um só gênero, não daria certo – chama-se viés da amostra quando isso não é feito devidamente. Para projetar uma pesquisa para o Brasil como um todo é necessário ter pessoas de todas as faixas de renda, cor, religião e gênero e regiões da federação, numa proporção mais ou menos próxima do que se verificaria na população como um todo, do contrário a amostra será enviesada e o resultado estará errado; (2) pressupõe-se que é conhecido o formato da distribuição de probabilidades da população total – é difícil explicar o que isso significa sem antes explicar pelo menos o que seria uma curva normal de distribuição de probabilidades (caso tenha curiosidade você pode ler um resumo sobre isso aqui) – mas asseguro que esse tipo de problema faz parte do cotidiano de estatísticos e as distribuições da população são razoavelmente conhecidas, dificilmente as pesquisas erram aí – o erro de amostragem é o que exige o maior cuidado mesmo.

A pergunta que se segue é: 3.810 pessoas são suficientes para projetar a opinião do Brasil inteiro? Pode contrariar o senso comum, mas 3.810 pessoas de 212 municípios é muita gente e é uma amostra razoável. Evidente que quanto maior a amostra mais preciso será o resultado, mas o objetivo da estatística não é ter uma resposta 100% exata (você só conseguiria isso perguntando para cada uma das 200 milhões de pessoas do país mesmo), mas se você conseguir afirmar com 95% de certeza já é uma confiança muito satisfatória, dados os custos de perguntar pra todo mundo e até a impossibilidade física de se fazer isso. E, para poder afirmar com 95% de certeza, é necessário perguntar para muito menos pessoas, respeitando-se os critérios que falamos acima.

Perceba como no texto original do Felipe Moura ele não critica o tamanho da amostra, talvez porque teve contato com noções básicas de estatística. De toda forma, ele também não faz a menor questão de iluminar esse ponto, mas tem algum a cautela de não falar algo que por a+b estaria sem dúvida alguma errado.


Parte 2 – o problema do viés na forma como a pesquisa redigiu e apresentou as frases

Passado esse ponto, vamos à questão central daquele texto, e que de fato ataca um possível problema do viés em pesquisas estatísticas: as perguntas foram feitas direito, ou temos motivos para acreditar que o formulário da pesquisa foi tendencioso, induzindo os respondentes a uma conclusão equivocada?

Esse tipo de crítica, do ponto de vista do conhecimento de estatística, é bem fundada teoricamente, ao contrário da primeira sobre o tamanho da amostra. Uma pesquisa pode mesmo dar resultados completamente diferentes dependendo dos objetivos e da clareza dos formuladores das perguntas. Ok, tudo bem, aceitando isso, vamos ao que interessa. Tem realmente sentido dizer que o termo “atacadas” gera um duplo sentido, e que a pesquisa teria surtido resultados muito diferentes se ao invés de “atacadas” o termo usado fosse “estupradas”?

Por bom senso seria fácil concluir que, realmente, o termo “estupradas” teria alterado o resultado da pesquisa. MAS NÃO VAMOS PULAR PARA CONCLUSÕES PRECIPITADAS!! O raciocínio científico só tem sentido se for levado até o fim e com propriedade, parar ele no meio só gerará novas inconsistências. Duas questões bastante óbvias se colocam de imediato: (1) o termo “estupradas” geraria um novo viés na pesquisa que a impediria de apreender outros fenômenos, tal como, alega Felipe Moura, o termo “atacada” o fez? (2) ao usar o termo “estupradas”, a pesquisa continua captando aquilo que queria captar, isto é, a aceitação social da violência contra a mulher, ou passa a captar outros tipos de comportamento?

Sobre o primeiro ponto. O termo “atacadas” é de fato menos explícito e direto que o termo “estupradas”, e pode realmente ser interpretado de muitas formas. PORÉM, duas coisas: (1) as várias formas de entender o termo atacadas não são também elas formas de violência contra a mulher, e logo necessárias de serem captadas por uma pesquisa de aceitação social da agressividade contra elas? (2) Ao usar o termo estupradas, conjugando “merecem ser estupradas”, não induziria as pessoas que aceitam toda uma sorte de outros tipos de ataque a responderem “discordo completamente” por não quererem se passar como “pessoas más” que legitimam de alguma forma, mesmo que passiva, atitudes agressivas?

É fácil ver a importância central dessas questões. A pesquisa não era uma pesquisa de opinião, isto é, não era seu objetivo, como o seria em uma pesquisa eleitoral, que você respondesse apenas aquilo que está disposto a assumir, mas sim uma pesquisa de percepção social, que quer captar como você encara certas questões, certos ditados populares, certas situações sociais. A contradição entre essas duas coisas fica clara quando pensamos por exemplo quais seriam os resultados de uma pesquisa que perguntasse a toda a população masculina do Brasil: “Você estupraria uma mulher?”. Evidente que, com um pesquisador na sua frente olhando para você, 100% dos brasileiros do sexo masculino diriam que não, e nem por isso o país deixaria de registrar mais de 50 mil estupros por ano, sem contar os outros 450 mil que estima-se que aconteçam anualmente mas que não são registrados pela série de constrangimentos que as vítimas têm de superar para relatar esses casos. Numa pesquisa de percepção social, por outro lado, pressupõe-se que é mais difícil a pessoa se esquivar do seu subconsciente e da forma como julga os outros do que a forma como ela tem coragem de se afirmar ela própria. Essa contradição não é específica a essa pesquisa, é geral. Por exemplo, é um problema que o IBGE tem de enfrentar nos censos e na PNAD ao fazer pesquisas sobre a renda dos brasileiros: a maior parte dos entrevistados sempre vai falar uma renda menor do que sua renda real, por receios dos dados serem cruzados com os dados do fisco e da receita federal e sofrer retaliações por isso. Evidente que, se fizéssemos uma pesquisa perguntando “Você sonega impostos?”, com certeza a maior parte das pessoas responderia que não, mesmo com o IBGE, seus pesquisadores e a receita federal sabendo que isso ocorre sistematicamente.

Com isso fica claro também qual é o problema de usar diretamente o termo “estupradas”. Pelo caráter do termo, a “luz de alerta” piscaria e as pessoas não responderiam conforme elas percebem e julgam os casos de agressividade à mulher (ataque de todos os tipos, estupro inclusive), mas sim como elas querem ser vistas, isto é, não querem ser vistas como pessoas más que aceitam um dado tipo de injustiça. Todos são justos e bons aos seus próprios olhos. O mesmo ocorre com o “saber se comportar” – é o tipo de coisa repetida por todos os lados com todos os tipos de sentido; novamente, a pesquisa é de percepção, não de opinião. Independentemente do sentido que se dê para “saber se comportar”, o ponto é tentar estimar se a sociedade, que condena a prática do estupro, acha que as mulheres podem de alguma forma (não importa qual seja, não estão perguntando sua opinião, mas como você julga uma frase de senso comum), colaborar para culpabilizar as vítimas de alguma forma.


Superado esse ponto, vamos ao passo seguinte, ao cerne do problema com a pesquisa do IPEA. Não a forma como os textos foram redigidos, não o caráter da pesquisa, mas como a amostra foi coletada.


Parte III – o problema do viés na coleta das amostras da pesquisa

Como discutimos na Parte I, é necessário que as amostras da pesquisa sejam coletadas de forma aleatória, ao mesmo tempo em que a participação de cada grupo de renda, sexo e idade reflitam mais ou menos as participações desses grupos na população em geral.

O problema nessa pesquisa do IPEA aparece logo na apresentação do método de amostragem. Cito, marcando em negrito as partes cruciais:

“O Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) é uma pesquisa domiciliar e presencial que visa captar a percepção das famílias acerca das políticas públicas implementadas pelo Estado, independentemente destas serem usuárias ou não dos seus programas e ações. A partir desta 2ª edição, a pesquisa passa a ser realizada em 3.809 domicílios, em 212 municípios, abrangendo todas as unidades da federação. Passa também a ser utilizado o método de amostragem probabilística de modo a garantir uma margem de erro de 5% a um nível de significância de 95% para o Brasil e para as cinco grandes regiões.”

O problema central dessa amostragem é que a pesquisa é domiciliar, ou seja, a pesquisa é feita pelos pesquisadores de campo batendo na casa das pessoas durante o horário comercial. Para diversos tipo de pesquisa isso não se coloca como um problema, quando por exemplo perguntam sobre anos de estudo, pois quem estiver em casa pode falar o ano de estudo de quem não estiver em casa, se perguntado. Contudo, para uma pesquisa que busca sinais de como se comporta a subjetividade das pessoas, isso é bem mais complicado de ser feito, e não há garantia de que a opinião da pessoa que responder corresponde à opinião da família como um todo. Assim, o que ocorreu nessa pesquisa, e que os dados sobre as características da amostra atestam, é que foi dado um peso maior às mulheres (66,5% da amostra), quando deveriam ser um número bem próximo do 50%, e pessoas acima de 60 anos, que na amostra eram 19,1%, quando segundo o censo de 2010 do IBGE a participação dos idosos na população brasileira é de 7,4% do total.

Assim, o que ocorre é que para estimar a população brasileira a partir dessa amostra há um peso para a opinião das mulheres, possivelmente donas de casa, uns 30% acima do que se deveria, e no caso dos idosos suas percepções entram com um peso quase 3 vezes maior do que deveria na população como um todo. Quando a desproporção é tão grande assim, podemos concluir que não foi feita uma seleção devidamente aleatória: a chance de, selecionando 3810 pessoas do Brasil ao acaso, você obter 66,5% de mulheres é praticamente zero (seria o mesmo que tirar “cara” no “cara ou coroa” 66,5% das vezes em 3.810 lançamentos de moeda – qualquer um conclui que essa moeda teria sido modificada para dar cara, pois era pra dar algo muito próximo de 50% com todos esses lançamentos ao aleatório), e a chance de ter 19,1% de idosos também é baixíssima.

Mas e aí, a pesquisa tem efeito nulo, então? Sim e não. A pesquisa é de fato incapaz de afirmar que a população brasileira como um todo apresenta suas percepções tal como elas foram apresentadas no resultado global dessa pesquisa do IPEA. Contudo, como os pesquisadores também rodaram testes estatísticos para cada grupo social, alguns deles poderiam ser pegos para dizer como aquele grupo pensa, mas ainda assim é complicado. Se pegarmos só a análise do grupo “mulheres”, dentro desse grupo haveria mais mulheres idosas do que na população geral de mulheres de fato há, e se pegarmos o grupo “idosos” as mulheres provavelmente estarão mais representadas ali do que na população de idosos geral.

O único atenuante para esse erro da pesquisa seria a questão de que a pesquisa alega querer ver a percepção social das famílias, não de cada pessoa individualmente. Olhando por essa ótica, poderíamos dizer que os resultados refletiriam mais ou menos como essas percepções se fazem de alguma forma presente nas famílias brasileiras. Talvez não reflitam a opinião de todos da casa, mas de toda forma se fazem presentes ali, podendo representar muito ou pouco da visão do restante da família em um proporção maior ou menor dependendo da participação dos setores que estão sub-representados na pesquisa – adolescentes e não-idosos, e mulheres que trabalham fora de casa – fazem parte do domicílio.

Idealmente, contudo, o mais adequado seria que a pesquisa fosse refeita sem esse viés de amostragem, aí sim poderíamos ter uma representação mais fiel do quadro para a população brasileira como um todo. Fica aqui minha sugestão para o IPEA. ENTRETANTO, temos que seguir usando a razão e as evidências: o que podemos e o que não podemos afirmar a partir desses resultados? Na próxima parte debateremos esse ponto e como a vasta maioria das pessoas não entendeu o ponto central da questão.


Parte IV – O que podemos realmente constatar?

Passado o ponto anterior, contudo, não podemos parar por aí a análise!! A pesquisa ter apresentado viés na amostra NÃO PROVA que o inverso do que ela verificou é verdadeiro, como muita gente, incluindo o carinha da Veja, quis afirmar. Isso deveria ser óbvio mas nem sempre o é. Seria muito fácil provar qualquer coisa partindo desse raciocínio. Você passaria uma pesquisa onde você quer provar algum absurdo, todos respondem que não pensam o mesmo que você, mas depois você revela um erro na amostra e conclui que como a pesquisa estava errada, você estava certo e realmente aquele absurdo que ninguém concordou é verdade. Só teríamos provas de que realmente a sociedade brasileira não tem formas de aceitação social de agressões à mulher se uma pesquisa for adequadamente aplicada e provar isso. Uma pesquisa que tem viés não prova nem refuta afirmação nenhuma: é simplesmente uma pesquisa que precisa ser refeita. No caso dessa pesquisa, só precisa ser feita sem um viés na amostragem. Só isso.

O problema central que faz algumas pessoas pularem em conclusões é o seguinte: ao constatar que uma pesquisa que questionou 3.810 pessoas apresentou erro, pula-se para a ideia redondamente equivocada de que seu pequeno grupo social mais próximo é uma amostra muito mais significativa. E pior ainda, conclui-se que como a primeira pesquisa estava errada, essa “pesquisa alternativa” só pode estar realmente correta, quando na verdade isso beira o ridículo. Nós e nosso grupo social mais próximos seríamos uma amostra infinitamente mais enviesada do que essa pesquisa do IPEA. É homogênea demais, terá uma proporção de pessoas de diferentes cores e níveis educacionais totalmente diferente do que essas proporções se apresentam no Brasil, isso sem contar que é uma amostra muito, mas muito pequena mesmo. Seus 400 amigos do Facebook não são suficientes numericamente, você não os conhece tão bem quanto pensa para afirmar como eles responderiam essa pesquisa na frente de um pesquisador e não de um conhecido, e ademais são uma amostra completamente enviesada, parcial, definitivamente não-aleatória da população como um todo. O SEU bom-senso e a SUA VISÃO sobre como OS OUTROS responderiam está um universo de distância do que de fato seria o Brasil, sinto muito.

Outro jeito de ver esse problema são os dados revelados pela outra pesquisa do IPEA, sobre os casos documentados de estupro relatados nos centros de saúde do país. Essa pesquisa definitivamente está baseada em dados muito reais e confiáveis, que não só não são superestimados como estão MUITO AQUÉM do que seriam os dados reais de estupro no Brasil, pois pesquisas que perguntam se a mulher já foi vítima de estupro sugerem cifras muito maiores desses casos do que os hospitais e delegacias documentam de fato. Vamos aos números:

  1. Estima-se que a cada ano 0,26% da população brasileira sofra abuso sexual (527 mil casos de estupro por ano).
  2. Em 2012 foram notificados 50.617 casos de estupro.
  3. 90% das vítimas são mulheres, e 50% delas são menores de 13 anos. Metade delas são de pele preta ou parda e metade são brancas, ou seja, não é um fenômeno restrito à apenas parte da sociedade, mas sim geral.
  4. Mais de 70% dos estupros vitimizam crianças e adolescentes.
  5. 15% dos estupros envolvem mais de um agressor ao mesmo tempo.
  6. 97% dos estupros são cometidos por homens.
  7. 24,1% dos estupros relatados tem como agressor o pai ou padrasto da vítima.
  8. 32,3% são amigos ou conhecidos da vítima.
  9. Citação da pesquisa: “O indivíduo desconhecido passa a configurar paulatinamente como principal autor do estupro à medida que a idade da vítima aumenta. Na fase adulta, este responde por 60,5% dos casos. No geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares.”
  10. 20% a 40% dos casos de estupro estão relacionados ao consumo de álcool do agressor.
    Quando o agressor é um conhecido, de 67% à 80% dos casos de estupro à adolescentes e crianças ocorrem dentro da própria casa. Quando é um desconhecido, ainda assim de 20 a 30% dos casos ocorrem dentro de casa.
  11. 50% dos casos relatados anualmente de estupro por conhecidos as vítimas relatam que já haviam sido estupradas outras vezes. Nos estupros por desconhecidos, esse número é de 15%.
  12. Em 34% dos casos as vítimas apresentam estresse pós-traumático e transtornos de comportamento. 0,7% se suicidam.

Todos esses dados vêm de uma amostra de 50 mil vítimas de estupro no país, porém estima-se que mais de 500 mil casos ocorram anualmente, com a maior parte não sendo relatado à polícia nem passando pelos hospitais. A discrepância entre o número de casos que ocorrem e o número de casos que são denunciados é prova mais do que suficiente de que as mulheres vítimas de estupro estão encontrando motivos na sociedade para não denunciarem seus agressores. Com todos esses casos ocorrendo anualmente, podemos realmente dizer que não existe a tal “cultura do estupro” no Brasil? Podemos dizer que estamos enquanto sociedade realmente protegidos desse problema, quando a vasta maioria dos casos ocorrem dentro da própria casa e com menores de idade? Essas perguntas nos levam à conclusão final dessa discussão, apresentando o por quê de você, que pode ter concordado com a visão da Veja, foi sorrateiramente levado a raciocínios precipitados e induzido ao erro.

Conclusão

Imagino que o leitor desconfiado esteja achando que estou pulando em conclusões, pois não haveria relação direta entre “essa gente odiosa que pratica estupros” e a percepção social com relação aos ataques à mulher, que era a questão central do debate sobre a pesquisa do IPEA. Mas existe uma relação sim, e ela é direta e elementar, e não algo puramente ideológico, como os sacerdotes da Veja querem nos convencer.

O ponto é que, se a sociedade dá minimamente a entender que há uma parcela de culpa no comportamento das mulheres que levou à ocorrência do estupro, não importando como cada um se justifica para tanto, a vítima será muito menos propensa a denunciar seu agressor, especialmente se a vítima for menor de idade, como em 50% dos casos de estupro. Por outro lado, se a vítima percebe que a sociedade estará do lado dela, apoiando sua decisão de denunciar e não a olhando com maus olhos não importa como ela seja, como ela se vestiu ou aonde e a que horas ela estava, as chances dessa vítima ir a uma delegacia para fazer uma delação são significativamente maiores e não poderia sê-lo de outra forma. Atualmente, as barreiras que uma mulher vítima de estupro têm de romper para tomar a decisão de relatar seu agressor são altíssimas, cruéis e sem sentido. Terá de enfrentar olhares da família, será julgada por colegas, pode causar discórdia na família se se tratar de um agressor conhecido, enfim, pode ser estigmatizada de várias maneiras. Enquanto isso, seu agressor passará impune e terá grandes chances de abusar sexualmente de novo, tanto da vítima anterior como de outras mulheres.

Assim, o ponto crucial de todo esse movimento que brada “Eu não mereço ser estuprada” é esse: sob nenhuma circunstância a sociedade pode ver nas mulheres e nas vítimas qualquer parcela de culpa. A culpa é do agressor e só dele, ponto. Qualquer outra forma de ver a questão pode induzir as vítimas a pensarem que não devem ou não teriam apoio caso delatassem o agressor, seja apoio de conhecidos ou do próprio Estado, que não existe apenas na lei mas em pessoas de carne e osso que atenderão essas vítimas em delegacias e postos de saúde e devem se sentir amparadas em todas essas instâncias.

Pergunto qual é a sociedade que queremos deixar para nossos filhos, uma sociedade que repita os mesmos erros da atual ou uma sociedade que dê apoio total para que essa chaga da violência contra a mulher seja erradicada do país? Esse é o ponto central da questão, e é por esse motivo que independentemente dos resultados da pesquisa de percepção social do IPEA, foi fundamental o movimento de conscientização que a pesquisa gerou e, se ela queria ajudar a apresentar o problema para a população, foi socialmente muito mais válida do que muita pesquisa que, tendo feito corretamente a amostragem, não deu qualquer retorno para a população em geral. Diante disso, é mais que fundamental que não adotemos uma posição hipócrita e equivocada de que simplesmente por causa de um problema de amostragem não existem mais problemas no modo como nossa sociedade enxerga as mulheres e as vítimas de agressões físicas e sexuais.

Quem realmente acha que tudo está bem como está e basta mandar pra cadeia (ou matar) quem for acusado de estupro, se você leu este texto na íntegra, esteja ciente a partir de agora que você pode sem querer estar sendo parte do problema e não da solução, pois apenas uma pequeníssima parcela dos estupradores deste país é delatada, e milhares saem impunes não somente por ineficiência do Estado, mas porque as vítimas não encontram apoio na sociedade para vencer as barreiras sociais impostas no processo de denúncia.


Espero que este texto tenha sido útil para esclarecer os principais pontos do debate e reiterar a enorme necessidade de enfrentamento que o problema da violência à mulher no Brasil realmente necessita. Fiz o possível para precisar os raciocínios e colocar as devidas referências sem fazer apelos ideológicos rasos. Críticas, comentários e sugestões serão bem vindos, e agradeço aos leitores que tiveram a paciência de acompanhar o texto inteiro.

Diante de tudo isso, resta-me apenas reiterar que a plaquinha a ser levantada continua sendo, sem dúvida, a de #EuNãoMereçoSerEstuprada.

Thomas Victor Conti tem 27 anos, possui Mestrado e Graduação em Economia, é doutorando em Economia pela Unicamp. Trabalha como professor e assistente de coordenação na Especialização em Law & Economics da Unicamp. Meu objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

4 Responses to “A pesquisa do IPEA sobre as mulheres está errada? Sim, e Não. Entenda o problema.”

  1. Walkyria Izaise Ramos

    Parabéns! Mestre!
    Mais uma vez você contribuiu com meu raciocínio. Diante de uma matéria tão polêmica, onde muitos falam e poucos realmente entendem o que falam, é de suma importância termos ao nosso alcance pessoas como você que nos mostra de forma tão didática a real situação das coisas.
    Descobri seu blog, como que por acaso, li e entendi a matéria e mais que isso o que realmente nós temos além das palavras e opiniões. Uma problemática muito séria e que depende de nós mesmos cidadãos, senão por um fim, ao menos amenizar e faze diminuir as ocorrências de violência contra a mulher.
    Abraços

  2. Polêmica do IPEA: cinismo e hipocrisia são marcas do debate | Blog Thomas Conti

    […] vimos na Parte IV do meu post anterior, as ocorrências de estupro não estão limitadas à determinada faixa de renda, escolaridade ou […]

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