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V de Vingança é uma história em quadrinhos publicada entre 1982 e 1985, escrita pelo gênio literário Alan Moore e ilustrada por David Lloyd. A história ganhou repercussão mundial a partir da adaptação dos irmãos Wachowski (de Matrix) para o cinema em 2005 e a adoção da máscara de Guy Fawkes usada pelo protagonista V como símbolo do grupo hacker Anonymous e em protestos a partir de 2008.

Em 2013, após diversas ondas de manifestações, protestos e revoltas, do Occupy Wall Street à Primavera Árabe e agora o Brasil, podemos dizer com segurança que a máscara já se tornou um símbolo mundialmente reconhecido de resistência popular, chegando até a ser oficialmente banida pelos governos do Bahrain e da Arábia Saudita.

Contudo, por trás desse uso comum há uma densa história de ficção que traz a tona diversas temáticas de grande profundidade e relevância que vale muito a pena entender. Vamos tentar olhar mais de perto esses pontos, sem estragar a história para quem ainda não leu ou assistiu e tentando trazer reflexões adicionais para quem já conhece!

O Adultério da Justiça

Um dos pontos centrais da trama é o problema da justiça. Romântico e apaixonado por teatro, no quadro acima o protagonista V encena um diálogo com a estátua da Justiça de Old Bayley. O personagem teria descoberto o amor de Justiça por homens de farda, acusando-a de traição. Um dos traços marcantes das tramas de Alan Moore é que nada é escolhido por acaso: perceba que essa estátua particular da imagem da justiça não é a usual: ela não está com os olhos vendados, símbolo da imparcialidade representante do mote “A justiça é cega”.

Na história em quadrinhos, após um holocausto nuclear iniciado pela eclosão da Terceira Guerra Mundial, a Inglaterra resiste porém a duras penas, e um governo fascista assume o poder sob o discurso de urgente e necessária restauração da ordem. Na década de 80, quando foi publicada, a referência do autor era o tenso período da Segunda Guerra Fria e a ascensão do governo conservador-autoritário de Margaret Thatcher ao poder na Inglaterra de 1979 a 1990.

No filme, os irmãos Wachowski traduzem essa tensão política para o século XXI: a história, que ali se passa em 2017, retrata também um governo autoritário e fascista. A conjuntura da guerra fria é substituída pelo ambiente das ameaças terroristas e o suspense de que o governo teria realizado ele mesmo um ataque contra a população e jogado a culpa em grupos terroristas, para tomar o poder sob o mesmo discurso de restauração da ordem.

Nos dois cenários, o resultado é a implementação de medidas que cerceiam a liberdade da população e legitimam um ‘segundo holocausto’ contra as minorias, tal como fez o regime nazista de Hitler.

Um dos pontos que une essas duas tramas distintas é como aquilo que é aceito e considerado justo consegue ser distorcido através da manipulação de informações, propaganda política, controle da opinião pública e, no limite, instrumentos de repressão violentos como perseguição, tortura e campos de concentração. Tudo isso obtido debaixo dos olhos de uma maioria que se mantém silenciosa.

Hoje, a perspectiva que permeia diversas oposições ao status quo é justamente a de que a justiça está à serviço de classes (ditadores, políticos, bilionários) enquanto deixa o povo ao léu.

Queda e Ascensão; Meios e Fins


O que Alan Moore coloca em jogo é o problema de como os seres humanos costumam racionalizar atrocidades em prol de um objetivo maior. Isso aparece tanto na conduta do regime fascista quanto na do anti-herói V.

O mote do governo fascista da história, chamado Norsefire, é “Força através da Pureza, Pureza através da Fé”, que combina sinteticamente os elementos da ideologia fascista: o ideal da “raça pura” como norte de ação para obter a unidade nacional e a supremacia predestinada de um povo, e a fé tanto em seu sentido religioso (há uma religião oficial de Estado, os infiéis são perseguidos e executados) quanto no sentido laico (é necessário ter fé no governo e na pátria; qualquer sacrifício pessoal é válido à luz da nação).

Esse arcabouço é reforçado em traços sutis ao longo do livro inteiro, ponto que o filme dá pouca ou nenhuma atenção. No livro, os principais órgãos do governo chamam-se “O Dedo” (polícia), “O Nariz” (detetives e censura), “O Olho” (câmeras de vigilância), “A Boca” (propaganda), “Destino” (máquina central que controla as informações), “O Líder” (topo da hierarquia). Novamente, simbolizam a pretensiosa e autoritária unidade almejada pelos fascistas.

O longo aparato de violência e perseguição; o racismo, a xenofobia, homofobia, preconceitos em geral; a limitação das liberdades civis… todos esses meios desgraçados são relativizados pelo governo e seus muitos apoiadores em prol dos fins de unidade e supremacia buscados.

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Já do ponto de vista anarquista de V, se a perspectiva é que a justiça já perdeu seu caráter de imparcial e passou a servir apenas o ideário do governo, coloca-se o problema de como reverter essa situação.

Da perspectiva dele, estabelecer a liberdade e a justiça passa necessariamente pela destruição daquilo que representa o poder e a opressão. Isso se dá tanto no nível pessoal quanto no nível sistêmico: o personagem assassina aqueles que foram responsáveis por torturá-lo, assim como busca vingança contra o governo como um todo, destruindo suas bases de apoio através da vertente violenta das ideias de Ação Direta e da Propaganda pelo Ato, duas estratégias de atuação de raiz anarquista.

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Para V, a ordem fascista atual foi obtida através da coerção, e portanto não é uma ordem verdadeira fundada na liberdade e no voluntarismo (ordnung), mas apenas uma fachada de ordem. O processo para reverter essa situação implica um período de transição essencialmente caótico (verwirrung, ou caos em alemão) que coloca abaixo a ordem antiga e dá às pessoas a oportunidade de serem livres e criarem uma nova ordem fundada nessa liberdade. O personagem coloca que o estágio final, a anarquia, seria a revolução para a “Terra do Faça-o-que-quiser”, em oposição ao estágio caótico que a antecede, a “Terra do Tome-o-que-quiser”, onde ocorrem manifestações, protestos, revoltas, vandalismo generalizado. No filme, essa perspectiva anarquista e a ambiguidade do futuro é deixada de escanteio, preferindo-se idealizar a passagem direta da ordem autoritária-repressiva para a revolução.

O personagem V, contudo, relativiza o caos e a violência em nome do objetivo final da liberdade e da justiça verdadeiras. Essa ambiguidade dentro do próprio herói era um dos objetivos centrais de Alan Moore com a história. No mundo de hoje, milhões de pessoas se levantam para protestar, bloqueiam ruas, entram em conflito, ocupam espaços… a perspectiva de continuarem parados lhes é muito mais aterradora do que romper o ritmo usual do cotidiano.

Quem foram os responsáveis? Quem se responsabilizará?


responsabilidades v de vinganca anarquismo blog thomas conti alan moore
Outro ponto que se faz presente nas histórias de Alan Moore é como o poder e sua orientação (bom/mau) são ambos problemas socialmente construídos, e não um problema individual dessa ou daquela pessoa.

Ao longo da história ilustrada, mostra-se como sempre esteve presente uma tendência de as populações, sob pressão de forças externas, entrarem em colapso e se renderem à governos totalitários. O regime fascista de Norsefire foi eleito e era bem aceito pela maioria da população (no filme, essa crítica não aparece), que em grande medida era de conivente à cúmplice das mortes propagadas. Não que todo mundo fosse inerentemente mau. Alguns só estavam com medo, outros estavam inseguros, outros não tiveram coragem de falar algo, outros só queriam voltar à tranquilidade, outros achavam que tinha que ser daquele jeito e quem discordasse tinha que sofrer mesmo, ou de preferência morrer, e por aí vai…

Para V, as forças armadas e os membros do partido são especialmente responsáveis, mas de modo algum o personagem demonstra simpatia pela multidão silenciosa que pouco faz para combater essa chaga. Aparece novamente a filosofia anarquista: o mundo onde haverá uma ordem de liberdade só será possível quando cada um se encarar como sujeito ativo na construção dessa liberdade. Enquanto a maioria permanecer calada diante de uma hierarquia ou opressão, os opressores sempre encontrarão um ambiente fértil para se reproduzir.

Dentro dessa perspectiva, o personagem não balança: dedica sua vida totalmente à luta pela liberdade, buscando pelos seus atos motivar outros a deixarem o silêncio. Novamente, isso aparece tanto em nível individual (os esforços do personagem para libertar Evey do medo) quanto sistêmico (mostrar o quanto a aparência de ordem do autoritarismo deve-se apenas ao medo que coloca na cabeça das pessoas sendo, portanto, muito susceptível à ataques diretos que mostrem a fragilidade do controle).

Em certo sentido, a máscara enquanto símbolo do protesto mostra (ou deveria mostrar) isso: estou aqui enquanto sujeito ativo, e a injustiça não será tolerada.

O Poder das Ideias

Mesmo diante de todos esses temas, talvez a mensagem mais forte da história seja a genialidade com que mostra o potencial que uma ideia pode ter. A identidade por trás da máscara de V é uma incógnita por vontade deliberada do personagem: com suas ações, ele não busca a fama ou o poder, ele busca representar e defender uma ideia. Pois qualquer um pode usar uma ideia, qualquer um pode defendê-la, e ninguém poderá matá-la através da força.

Poderia citar diversos exemplos da genialidade e sutileza com que esse ponto é abordado ao longo do livro, porém a essa altura espero ter convencido alguns de que vale a pena conferir a história original na íntegra e prefiro não revelar cenas importantes.

Qual a ideia que vem repercutindo no Brasil e afora nos últimos anos??? Talvez os dois quadros abaixo tenham algo a dizer sobre isso… mas só talvez.

v de vinganca liberdade anarquia poder das ideias blog thomas conti alan moore

No futuro, pretendo retomar esse artigo. À luz dessas ideias podemos debater o papel que o grupo Anonymous vem desempenhando no Brasil, o uso das máscaras nas manifestações pelo país – o bem humorado “V de Vinagre” -, além de vários outros pontos.

Thomas Victor Conti tem 27 anos, possui Mestrado e Graduação em Economia, é doutorando em Economia pela Unicamp. Trabalha como professor e assistente de coordenação na Especialização em Law & Economics da Unicamp. Meu objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

3 Responses to “V de Vingança e o ideário que está marcando a Década”

  1. Matheus Henrique

    Deve-lhe dar os meus parabéns pelo artigo, realmente é interessantíssimo relacionar a verdadeira história e “ideal” por trás da obra de Moore, com os protestos brasileiros.
    Sugiro a você, que faça digamos, um aparato, comparando e explicando as três ideias que rondam a ideologia de Guy Fawkes: a história original, a de Alam Moore, e a do Annoymous. Tenho certeza que pela sua capacidade seria um ótimo trabalho a sociedade 😀
    Abraços e parabéns de novo.

    • Thomas Conti

      Olá Matheus! Fico muito feliz que tenha gostado do texto, e sua sugestão é excelente, vou me organizar para escrever sobre o assunto! Minha dissertação de mestrado é centrada na Inglaterra, vou tentar conseguir algumas informações mais históricas e precisas sobre o Guy Fawkes hehe!
      Abraços!

  2. Elza

    Meu caro Thomas,
    a tal ambiguidade eu enxergo claramente nos jovens de máscara daqui B.Hte! Nas manifestações eles “bradam” que irão destituir os governos, acreditando que …”estabelecer a liberdade e a justiça passa necessariamente pela destruição daquilo que representa o poder e a opressão…”.
    Quem os ouve gritar “NAO VAMOS PARAR, NAO VAMOS PARAR”, sente que eles estão indo prá guerra, na verdade eles se “colam” pelos braços uns dos outros e se jogam contra o pelotão de polícia. É de arrepiar!!!
    Eu não conhecia a história dos mascarados, foi bem esclarecedor.
    Parabéns pelo seu trabalho!!!
    Abraço,
    Elza =D (y)

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