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Revoluções, essas grandes mobilizações populares de contestação, nunca surgem do nada. Seja pela nossa capacidade de tolerar algumas injustiças ou de vivermos a despeito delas, seja por nos vermos incapazes física ou mentalmente de realizar mudanças substantivas na realidade em que vivemos, em geral leva um tempo considerável até que se instale o espectro da necessidade de mudança.

Ou talvez ainda não nos afastamos o suficiente do que já dizia Maquiável para o príncipe Lorenzo de Medici em 1513: populações que não estão acostumadas com a vida em liberdade são submetidas muito mais facilmente.

De toda forma, uma vez que paulatinas e crescentes insatisfações são causadas e se disseminam pela sociedade, qualquer fagulha pode colocar em ignição forças que até então permaneciam invisíveis sob o frágil porém regular tecido da rotina e dos hábitos cotidianos.

Acumulando inimizades

O Primeiro Ministro da Turquia, Tayyip Erdoğan, do partido AK ou “Partido da Justiça e Desenvolvimento”, é de base religiosa islâmica e se encontra no seu terceiro mandato e décimo ano de governo, período extenso em que diversas leis e medidas autoritárias foram levadas a cabo.

Dentre elas, relatórios tanto da União Europeia e quanto dos Estados Unidos constataram problemas no avanço da democracia no país, barrada por medidas contrárias à liberdade de expressão e a liberdade de reunião. Protestos foram banidos, o parlamento conta com imunidades legais, jornalistas foram perseguidos, o governo vem pagando diversos veículos da grande mídia e punindo os meios e comunicação menores e mais radicais – tudo isso com casos explícitos ocorridos já em 2012.

Além disso, leis de caráter explicitamente islâmico, como restrições fortes ao consumo de álcool, a proibição sob pena de multa no caso de beijos em público (ou até andar de mãos dadas), ou a reforma educacional aprovada em 2012 que, segundo o Ministro, teria por objetivo criar uma “juventude religiosa”, geraram grande insatisfação entre os movimentos seculares do país.

Deflagrando uma guerra

Gezi Park Turquia Protesto Revolucao Blog Thomas Conti
A despeito dessa insatisfação que já vinha crescendo, tudo começou com a decisão do governo de colocar a Taskim Square na agenda da reforma urbana de Istambul. Desde 2001, vem crescendo na Turquia um boom econômico impulsionado pela construção civil, que inclusive fez com que o país não sofresse tanto as consequências da crise econômica mundial. O ponto é que as novas construções vem derrubando diversas áreas que antes eram públicas sem qualquer busca por referendá-las consultando a população, que não raro discordava dos projetos.

O evento do Gezi Park, portanto, não foi um caso de autoritarismo que fugia do “normal” praticado pelo governo. O que houve de diferente? Uma mulher de vermelho.

Garota de Vermelho Turquia Protesto Revolucao Blog Thomas Conti

The woman in red” ou “A Mulher de Vermelho”: a foto, mostrando a violência indiscriminada da polícia contra uma mulher que não demonstrava qualquer ameaça ao batalhão, foi tirada nos protestos de 28 de maio. A imagem espalhou-se mundialmente pelas redes sociais e alguns veículos da mídia internacional, gerando revolta na população turca e comoção mundial.

A brutalidade empregada pela polícia na tentativa de suprimir as manifestações no Gezi Park foi o estopim da insatisfação crescente pela qual cidadãos de todas as idades vinham sendo afetados ao longo dos últimos anos. Dezenas de milhares se juntaram nos protestos, que até agora já causaram a morte de pelo menos 3 manifestantes e um policial, ferimentos em mais de 4000 e pelo menos 3000 presos.

Organização e resistência popular

Os protestos na Turquia já vão para a sua segunda semana e não dão indícios de que estão próximos do fim, com as últimas manifestações atraindo dezenas de milhares de pessoas contra as medidas do governo. No Gezi Park ocupado, a população organiza atividades culturais, chegando até a uma orquestra filarmônica tocada pelos apoiadores!

Mas nem tudo é um mar de rosas, especialmente quando se está contra o lado que possui o monopólio das forças armadas. Através do youtube e do twitter, vídeos denunciam a violência gratuita das forças policiais. Algumas dessas atitudes vergonhosas são expostas no vídeo abaixo, apenas um dos vários compartilhados:

A resposta das autoridades: do governo, repressão; da mídia, o silêncio

Enquanto os protestos cresciam e as demandas por mudanças no governo chamado de tirano pelos manifestantes ficavam cada vez mais altas, o Primeiro Ministro Erdogan manteve sua agenda de compromissos como se nada estivesse acontecendo, viajando para o Marrocos e outros países da África, enquanto alegava não haver nada demais acontecendo na Turquia. Em viagem, declarou que “as mídias sociais são a pior ameaça para a sociedade“. Usuários de mídias sociais foram presos por declarações que fizeram na internet, reforçando os gritos de falta de liberdade de expressão vindos das ruas e praças. O governo cinicamente alega manipulação pelas mídias sociais como principal culpada pelo movimento.

Em meio a todo esse caos, era de se esperar que a mídia turca tivesse algo a dizer. Contudo, o silêncio dos dois maiores canais de comunicação foi tão forte que virou até motivo de piada. Um dos canais passou um documentário sobre pinguins enquanto dezenas de milhares se revoltavam e mais de 3000 mensagens sobre o conflito eram enviadas a cada minuto sobre o twitter. Camisetas e imagens sobre pinguins viraram uma marca para criticar a mídia na Turquia.

Protestos de 2 de junho: do lado esquerdo, a cobertura da CNN Turquia. Do lado direito, a cobertura da CNN internacional.

Além das mídias sociais e de blogs independentes na internet, alguns veículos da mídia internacional vem tentando cobrir as manifestações e criticar a mídia turca, ainda que, como sabemos, problemas desse tipo com a mídia estejam longe de ser exclusividade dos turcos.

Demandas que pendem na balança: secularismo e democracia

O que está em jogo na Turquia é em que medida o país será capaz de conciliar as demandas por um Estado laico e democrático com as raízes religiosas tradicionais e a nítida orientação islâmica e autoritária do partido atualmente no poder. Os diálogos que a Turquia vem fazendo com a União Europeia para entrar na Zona do Euro também esbarram nesses problemas, pois são liberdades e direitos exigidos para o país entrar na comunidade europeia. Se por um lado os protestos não visam a derrubada do Estado enquanto tal, por outro as mudanças que buscam seriam mudanças radicais na vida política e social do país e não ficam aquém do que poderíamos chamar de revolução.

Segue a lista de demandas dos manifestantes turcos:

  • 1. A preservação do Gezi Park;
  • 2. Fim da violência da polícia, o direito de liberdade de reunião e a cassação daqueles responsáveis pela violência contra os manifestantes;
  • 3. Um fim para a venda dos “espaços públicos, praias, águas, florestas, córregos, parques e símbolos urbanos para as companhias privadas, grandes corporações e investidores”;
  • 4. O direito das pessoas expressarem suas “necessidades e reclamações sem experimentarem o medo, prisão ou tortura”
  • 5. Pela mídia “cujo dever profissional é proteger o bem público e transmitir informações corretas… agir de forma ética e profissional.”

A capacidade dos manifestantes de reorientar essas inclinações anti-democráticas do governo certamente servirá de exemplo para tantos outros países que enfrentam problemas similares. Fiz questão de escrever sobre o movimento na Turquia não apenas para manifestar solidariedade, mas porque também para enxergarmos os problemas que nós mesmos vivemos é necessário adentrarmos pontos de vista de outras pessoas, e como elas estão travando suas lutas.

Thomas Victor Conti tem 27 anos, possui Mestrado e Graduação em Economia, é doutorando em Economia pela Unicamp. Trabalha como professor e assistente de coordenação na Especialização em Law & Economics da Unicamp. Meu objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

2 Responses to “Por dentro da revolta na Turquia: protesto e revolução”

  1. Brasileiros se levantam contra a depredação da sua cidadania | Blog Thomas Conti

    […] ruas, se o trabalhador não tem tempo? Como os paulistanos equacionam esse problema? Assim como no caso da Turquia que discutimos semana passada, a situação acaba tendo que chegar em um nível extremamente […]

  2. R$800 é o custo de cada bomba de gás usada no Brasil | Blog Thomas Conti

    […] A empresa brasileira que produz esses artefatos de guerra não-letal, chamada Condor Non-Lethal Technologies, está lucrando (e muito) com a onda de protestos. Não só com os protestos daqui do Brasil, mas também com exportação, com mais de 41 países na lista de compradores. Dentre eles a Turquia, cuja demanda pelas bombas de gás brasileiras aumentou desde que começaram as revoltas por lá. […]

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