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Nesta semana completam-se 68 anos do bombardeio atômico dos Estados Unidos sobre as cidades de Hiroshima (dia 6) e Nagasaki (dia 9) no Japão. O ataque entraria para a história não apenas como marco do fim da Segunda Guerra, mas também como a primeira cicatriz de que uma fronteira completamente nova de capacidade destrutiva fora aberta.

Nagasaki, 1945: o antes e depois da bomba atômica. De Hiroshima, com base em fotografias do antes e depois, foram construídas duas maquetes para ilustrar o resultado da bomba.

Enquanto a história do lançamento das bombas seja amplamente conhecida e os anos posteriores da guerra fria sejam igualmente muito lembrados pela ameaça nuclear constante, é menos contada a história sobre até que ponto realmente chegaram os “avanços” tecnológicos para produzir armas cada vez mais eficientemente destrutivas. No artigo de hoje pretendo mostrar apenas alguns desses artefatos que, talvez devido à sua descomunal covardia, sequer tiveram (ainda) a coragem para utilizar.

Digo isso não porque não considere o bombardeio atômico americano uma grande covardia, mas porque à luz dos crimes de guerra que já haviam perpetrado no Japão, não foram especialmente covardes. Por exemplo, no Japão da década de 40 mesmo nas maiores cidades as casas eram usualmente feitas de madeira; sem discriminar civis de alvos militares, com seus bombardeiros B-29 os americanos incendiavam as cidades japonesas usando napalm. A soma de um combustível altamente inflamável com a madeira seca de aglomerados urbanos criava enormes tempestades de fogo que matavam tanto por asfixia quanto pelo calor (fenômeno parecido com o que acontece no Brasil nos incêndios em favelas, porém em escala muito maior). Com esse tipo de tática, apenas no bombardeio de Tokyo foram mortos por volta de 100.000 japoneses: foi o maior bombardeio único da Segunda Guerra e sua destruição foi maior do que a das bombas atômicas isoladamente.

A história sombria da humanidade…

Tokyo kushu hikaku bombardeio incendio americano sobre japao 1944 segunda guerra blog thomas conti

A história não acabou em 1945, contudo. Veremos algumas das armas que a criatividade dos militares e cientistas da guerra fria foi capaz de criar ao longo de 45 anos:

O Dispositivo Nuclear Davy Crockett

Embora o tamanho descomunal das explosões atômicas cause medo e espanto, se pensarmos bem mesmo a ideia de uma bomba nuclear em miniatura parece muito mais perturbadora. E, claro, não seríamos nós os primeiros a pensar nisso. No fim da década de 50 cientistas americanos desenvolveram o chamado Dispositivo Davy Crockett: uma ogiva nuclear tão pequena que poderia ser lançada como um tiro de bazuca por uma equipe de apenas três pessoas.

Davy Crockett Bomba Atomica Guerra Fria Estados Unidos

Durante a década de 1960, diversos pelotões americanos carregavam essas armas. Pesando apenas 30kg, uma única ogiva tinha a capacidade de destruição de 10 a 20 toneladas de TNT, muito próximas da faixa das bombas de Nagasaki (21 toneladas de TNT) e Hiroshima (16 toneladas), com as vantagens da facilidade de transporte e capacidade de ataque surpresa.

2.100 unidades do dispositivo foram produzidas nos EUA, porém em acordo com a URSS em 1968 sua produção foi interrompida por diversos motivos. Primeiro, se seu uso se tornasse generalizado, os pelotões tornariam-se incapazes de se defenderem pelos métodos usuais e mesmo os menores conflitos em terra seriam decididos na base do poderio nuclear. Além disso, justamente por serem muito pequenos havia o medo de que esses dispositivos pudessem sair do controle, cair em mãos erradas, ou serem utilizados por acidente gerando alguma catástrofe. Até hoje a ideia de bombas atômicas miniaturizadas é um medo constante na guerra contra o terrorismo.

A Bomba Suja (Dirty Bomb)

Como sabemos, a energia nuclear não se restringe à fabricação de bombas e pode também ser utilizada para gerar energia elétrica. E, como aconteceu em Shernobyl, quando um reator nuclear projetado para gerar energia se desestabiliza, o derretimento (meltdown) do núcleo de urânio gera níveis extremos e fundamentalmente incontroláveis de radiação, tornando toda uma área inacessível e letal a seres humanos.

A bomba suja nada mais é do que a “brilhante” ideia de transformar esse problema de descontrole de um núcleo de urânio em uma bomba: ao invés do núcleo da bomba explodir como numa bomba de fissão ou de fusão, o núcleo derrete e causa danos imensos e irreversíveis por um longo período a quem estiver próximo. A “vantagem” sobre uma bomba comum seria manter intactas as construções de uma região, afetando apenas os organismos vivos, e o longo período em que o território atingido ficaria inacessível. Essa ideia atingiria seu ápice na chamada bomba de nêutrons, um dispositivo nuclear especialmente projetado para causar danos através de um feixe de nêutrons livres responsáveis por níveis letais de radiação.

Até onde se sabe, os projetos oficiais de bombas sujas, embora tenham existido, não foram levados a cabo até o fim (ainda que em 2012 um ex-ministro do trabalho britânico tenha sugerido ameaçar lançar uma bomba de nêutrons na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão para impedir a ocupação daquelas montanhas). Atualmente, uma das principais preocupações na guerra contra o terrorismo é a possibilidade de detonação de uma bomba suja, pois os impedimentos tecnológicos são muito menores nesse caso: praticamente o único bloqueio à sua construção é a obtenção de material radioativo e instável o suficiente para causar uma reação em cadeia descontrolada.

Os ICBMs (Mísseis Balísticos Intercontinentais)

Com todo o conhecimento avançado de física de partículas envolvido na construção desses artefatos, é mais ou menos surpreendente que na verdade aproximadamente 57% de todos os gastos com o programa nuclear dos Estados Unidos durante a Guerra Fria eram direcionados para o sistema de transporte e arremesso das bombas, e não a manufatura das bombas em si, que se estima terem consumido apenas 7% dos gastos totais.

Os mísseis balísticos intercontinentais nada mais são do que o ápice da tecnologia de colocar a bomba certa no lugar certo. Bombas grandes demais, como a Bomba Tsar e sua capacidade destrutiva de 50.000.000 toneladas de TNT (ou 2.500 bombas como a de Nagasaki), são na verdade ineficientes do ponto de vista militar, pois além de não conseguirem discriminar os alvos importantes de alvos civis, também são pesadas demais e podem ser facilmente interceptadas através do ataque ao avião que as carregariam.

Ao invés de carregar uma única bomba, a ideia dos ICBMs é carregar múltiplas ogivas “menores” e ser capaz de, em um único lançamento, espalha-las por um amplo território com o objetivo de maximizar os danos. Cada ICBM carregar de 4 a 12 ogivas nucleares de 300.000 toneladas de TNT. O míssil, que pode ser lançado de silos na terra ou de submarinos, é projetado para sair da atmosfera da terra. Uma vez no espaço, as ogivas carregadas na ponta do míssil são direcionadas para os alvos na terra e soltas do corpo principal. Ao reentrarem na atmosfera, as ogivas descem a velocidades extremas atingindo diretamente o alvo desejado.

MIRV Minuteman Estados Unidos Guerra Fria Bomba Nuclear.svg

Os mísseis americanos dessa categoria são convenientemente chamados de Peacekeeper (Guardião da Paz).

Teste missil bomba de hidrogenio Peacekeeper ICBM

Reentrada na atmosfera das ogivas de um ICBM Peacekeeper dos EUA: em um ataque nuclear, cada feixe de luz dessa imagem detonaria uma ogiva 20 vezes mais potente que as bombas lançadas em 1945 sobre o Japão.

Em outras palavras…

Embora a guerra fria tenha acabado, a tecnologia e grande parte do arsenal desenvolvido nesse período continuam ativos e seguem determinantes tanto na distribuição do poder bélico e na geopolítica mundial. É fundamental relembrarmos o que ocorrera no Japão a 68 anos atrás, pois todos os avanços tecnológicos feitos de lá para cá redundam no elemento humano: ter ou não coragem de apertar um botão e condenar centenas de milhares de pessoas à morte – e essa decisão já foi tomada, ao menos duas vezes. É esse tipo de tragédia e covardia simplesmente não pode se repetir.

Para terminar: alguns vídeos impressionantes de testes nucleares


Lançamento sobre a superfície do oceano

http://www.youtube.com/watch?v=ggH-ObiUWEE

Tsar Bomba: a maior bomba nuclear já detonada

http://www.youtube.com/watch?v=Pu88gb1EpmI

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h4>Teste de uma detonação nuclear subterrânea</h4

Thomas Victor Conti tem 27 anos, possui Mestrado e Graduação em Economia, é doutorando em Economia pela Unicamp. Trabalha como professor e assistente de coordenação na Especialização em Law & Economics da Unicamp. Meu objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

2 Responses to “Muito além de Hiroshima: as armas nucleares que não foram utilizadas”

  1. Alexandre Nagado

    Um texto muito bom e perturbador também.

    Gostaria de complementar este post indicando dois links relacionados ao tema:

    Meu relato sobre a visita a Hiroshima que fiz em 2008, durante minha viagem de intercâmbio ao Japão:
    http://nagado.blogspot.com.br/2008/05/intercambio-no-japao-parte-5.html

    Museu Memorial da Paz, em Hiroshima:
    http://www.pcf.city.hiroshima.jp/index_e2.html
    – Um lugar impressionante, testemunha da crueldade da guerra.

    Abraços!

  2. Peri

    Bom texto. Uma pequena correção: a potência das bombas de Hiroshima e Nagasaki não é medida em toneladas de dinamite, mas sim em MILHARES (Kilo) de toneladas (ton) de dinamite. Daí o termo “kiloton”. Já as bombas H muitas vezes (não sempre) tem seu potencial medido em milhares de toneladas de dinamite (Megatons)

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