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Nas últimas semanas temos assistido a uma enxurrada de notícias sobre calamidades na guerra civil em curso na Síria, onde alega-se a utilização de armas químicas contra civis por parte do governo de Bashar al Assad. Embora tanto a razão do conflito quanto as mortes estejam naquele país, toda a atenção volta-se para quais posicionamentos Barack Obama deve tomar a respeito. Enquanto isso, Rússia, China e Irã já se manifestaram como contrários a qualquer intervenção americana, e o presidente Russo Vladimir Putin está liderando a oposição contra uma possível intervenção americana no país sírio.
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No artigo dessa semana, a ideia é explorarmos os pontos centrais do conflito e, na medida do possível, arriscarmos uma explicação. Quais os principais interesses envolvidos nesse embate? Quais os ricos assinalados por uma intervenção e a retórica hostil das potências?

O que aconteceu até o momento?

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A Síria está em guerra civil desde março de 2011, com estimativa de que até o momento mais de 100.000 pessoas tenham morrido. O estopim foi a onda de protestos conhecida como Primavera Árabe, que na Síria se expressou na forma de manifestações populares contra o regime de Bashar al-Assad, cuja família se mantém na presidência do país desde 1971. Ao contrário dos conflitos na Líbia e no Egito, na Síria o exército se manteve unido em apoio ao governo, gerando uma grande disparidade de forças em favor do regime de al-Assad. Diante desse quadro, a única alternativa dos rebeldes é recorrer a táticas de guerrilha, que são potencialmente mais danosas para a população civil e gestam um quadro de desordem generalizada no país. Não por menos, estima-se que o número de refugiados já tenha passado dos 2 milhões, ante por volta de 350 mil em 2012.

Com o prologamento das tensões no país, novos grupos têm se juntado às forças anteriores. O Irã apoia o governo Sírio, que recebe também ajuda de armamentos vindos da Rússia. O grupo Hezbollah também apoia as forças de al-Assad. Já do lado dos rebeldes estão a Turquia, Arábia Saudita e o Qatar, além da Frente al-Nusra, grupo associado à Al-Qaeda que opera na Síria.

Acusações de crimes de guerra têm sido frequentes ao longo de todo o conflito, e em 2013 relatos sobre o uso de armas químicas apareceram para insurgentes e situacionistas. Contudo, foi devido aos acontecimentos de 21 de agosto que a atenção internacional se voltou para o país. As forças rebeldes alegaram que o governo desferiu contra a população um ataque de gás sarin, poderoso agente químico classificado como arma de destruição em massa, tendo ocasionado e sido responsável pela morte de mais de 600 pessoas, entre elas crianças.

Problemas e interesses em jogo

1. A regulação internacional da guerra e o intervencionismo americano

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Enquanto dentro de cada país existe um sistema judiciário acoplado a forças policiais para fazer valer a lei, na arena internacional nem um nem outro são partes constitutivas do arranjo entre os países. O princípio da soberania dos Estados dentro de seus próprios territórios não necessariamente é compatível com o que poderíamos chamar de leis internacionais. E no limite essas leis são necessárias, pois não apenas o comércio internacional precisa contar com uma estabilidade dessas relações, como também a guerra desimpedida – com as tecnologias atuais – geraria massacres atrás de massacres, o que não é interessante para nenhum dos lados. Esse é um fator da natureza das relações internacionais atuais.

Quem deve fazer valer essas leis? Em teoria, a ONU e outras organizações multilaterais são os responsáveis por decidir conjuntamente como agir nos casos de violação. Contudo, os Estados Unidos são o único país com uma verdadeira capacidade de agir militarmente em todos os cantos do planeta. Dada essa desigualdade entre os EUA e os demais países, essa organização “multilateral” da ONU é sempre tensa, com os EUA defendendo seus interesses particulares e tentando convencer outros países de que isso é benéfico para o conjunto, enquanto outros se colocam contra os jogos americanos, sem contudo grande poder para tanto, atendendo-se mais ao discurso.

É nesse quadro que a questão da Síria aparece como explosiva. Dado o uso de armas químicas no território sírio, foi ferido o tratado internacional de não-utilização de armas químicas. O presidente Obama é pego numa sinuca: se não tomar nenhuma atitude, a posição de primazia internacional que seu país vem buscando por todos os meios desde o 11 de setembro fica em xeque, pois passará a mensagem de que os EUA não têm tanto poder assim; por outro lado, ao advogar por uma intervenção na Síria, entra em choque com a Rússia e outros países da região que apoiam o regime Sírio, além de se enfiar em uma situação caótica e imprevisível que toda guerra implica (lembremos que no Iraque a previsão americana era de uma guerra rápida, que acabou durando quase 10 anos).

No dia 30 de agosto, Obama declararia que pode sim tomar uma ação unilateral (sem consentimento da ONU) de ataque à Síria. Mas o quadro atual é distinto daquele do 11 de setembro, quando Bush fizera o mesmo. Naquela época, o ataque em solo americano gerou uma comoção nacional em torno da necessidade de responder energicamente, tanto nos americanos como também em outros países (Inglaterra e outros países europeus). Hoje, a situação é muito distinta. Com a memória do Iraque ainda fresca na memória, mesmo fiéis aliados americanos desconfiam da verdadeira necessidade de intervir na Síria, de até que ponto trata-se de uma questão de manter a paz internacional ou de defender um interesse americano na região. O cidadão americano, já atolado pela crise, não tem qualquer interesse em financiar mais uma guerra.

Vemos que um conflito em teoria restrito aos sírios na verdade tensiona as relações exteriores americanas e o papel geopolítico do país. Se lembrarmos que há apenas 5 meses estávamos escrevendo sobre o impasse da Coréia do Norte, podemos atestar como a manutenção da primazia americana no mundo está cada vez mais tensa.

2. Direitos Humanos, Terrorismo e a Rússia de Putin

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Até os atentados de 11 de setembro, a retórica da intervenção americana preferida por Clinton era a da necessidade de espalhar a democracia e os direitos humanos pelo globo. Esse discurso agradava os Europeus, mas nunca foi bem aceito por países como a Rússia e a China, onde conflitos internos são elevados e sob esse discurso a repressão da população é mais difícil de ser justificada. Embora isso nunca tenha saído do mapa, foi a partir do atentado que Bush e a burocracia militar dos EUA tiveram a oportunidade histórica de lançar a “Doutrina Bush”, que consiste no que se convencionou chamar de guerra preventiva: basta que um país tenha a intenção de armar-se contra o interesse americano para justificar um “ataque preventivo”, isto é, antes que essa intenção ganhe qualquer forma concreta. Isso vale também para grupos internos aos países que possam ter intenções contrárias a ordem – os terroristas.

A princípio essa nova retórica caiu como uma luva para os russos. Já em 1999, o presidente Putin escrevia um artigo para o New York times buscando legitimar seu ataque à Chechênia.

Contudo, os discursos valem até que se atinja o limite de seus próprios interesses, e na Síria, que já era um país aliado dos russos, não é de qualquer interesse do país deixar que os Estados Unidos demonstrem capacidade de realizar uma ação unilateral. A primeira resposta de Putin aos EUA foi uma tentativa de dissuasão: caso os EUA atacassem a Síria, a Rússia responderia atacando a Arábia Saudita (país aliado dos americanos). Enquanto a Arábia Saudita oferecia aos russos acordos bilaterais de fornecimento de petróleo para saírem do embate na Síria (além de uma proteção contra terroristas financiados pela Arábia Saudita para os jogos olímpicos na Rússia), os EUA buscavam um meio de mostrar que o ataque ao governo Sírio era legítimo. Para isso, o único jeito seria provar que o atentado químico contra a população foi de autoria do governo, pois a população americana não está convencida de que ajudar os rebeldes é de seu interesse, uma vez que estão aliados à forças ligadas à Al-Qaeda.

O ponto é que Putin não está nem um pouco disposto a permitir uma jogada americana em sua área de influência mais próxima. O presidente russo chegou a lançar um novo artigo no New York Times, onde diz explicitamente que a ideia americana de que são “excepcionais” é extremamente perigosa, e que o uso cada vez mais recorrente da força pelos EUA está apenas incentivando os países na busca por armas nucleares. Já que o país hegemônico não respeita as leis internacionais, então ninguém está seguro de fato e cabe a cada país dar um jeito de resolver o problema da segurança.

Para evitar esse quadro, a Rússia advoga pelo uso da diplomacia e ataca a política intervencionista e unilateral americana. Contudo, como tentei esboçar, o quadro é muito mais tenso e é evidente que essa retórica russa é estritamente direcionada para fazer os Estados Unidos recuarem daquela região – a saber, Putin termina seu texto dizendo “Somos todos diferentes, mas quando pedimos a benção do Senhor, não podemos esquecer que somos todos iguais”. Como fica a questão dos homossexuais sofrendo repressão na Rússia? Evidentemente, quando o assunto é poder cada caso é um caso, e as circunstâncias determinam a retórica.

Encaminhamentos do conflito

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Por hora, a determinação russa em frear os EUA na Síria conseguiu impedir um ataque unilateral americano naquele país. Uma delegação da ONU está investigando o atentado químico na tentativa de achar o culpado, enquanto Rússia e Estados Unidos fazem suas próprias investigações paralelas, um tentando jogar a culpa no governo Sírio, outro nos rebeldes.

Historicamente, estudos mostram que o “militarismo humanitário”, isto é, intervenções militares com o objetivo de criar a paz em guerras civis, apenas tenderam a intensificar e prolongar os conflitos, aumentando inclusive o número de mortos.

Do ponto de vista da população síria, a saída diplomática seria sem dúvida a melhor escolha, porém seu destino reside no resultado do embate das forças maiores que rondam o país conseguiram ou não equilibrar seus interesses de forma a atingir esse resultado. Até lá, toda a atenção fica sob Obama e Putin, Estados Unidos e Rússia, em seus jogos de interesse e influência. Tentar prever os resultados é impossível, mas para mim este ano está mostrando uma tensão cada vez maior ao papel dos EUA, que está encontrando dificuldades crescentes de convencer os demais países de que sua primazia é realmente benéfica, ou até mesmo necessária.

Thomas Victor Conti tem 27 anos, possui Mestrado e Graduação em Economia, é doutorando em Economia pela Unicamp. Trabalha como professor e assistente de coordenação na Especialização em Law & Economics da Unicamp. Meu objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

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