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Se existe alguma causa consensual entre o povo deste país é a de que a educação não apenas é ruim, como também é visível que a melhoria do sistema de ensino está longe de ser a prioridade nacional. As insatisfações com o modo como está organizada a educação são das mais variadas: no nível mais básico da inserção das crianças na sociedade faltam milhares de creches; nos níveis primário, fundamental e médio, ninguém faz ideia de como lidar com o maremoto de alunos insubordinados, amparados por pais lenientes ou ultra-protetores; no ensino superior, são maioria os docentes com décadas de pesquisa intelectual em seu ramo, contudo sem um semestre sequer de preocupação com a pedagogia: paradoxalmente, há quem se gabe de ser capaz de ensinar alunos auto-didatas.

Breve resumo da origem histórica do atual déficit educacional brasileiro

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O cenário caótico com que nos defrontamos evidentemente não teria como surgir da noite para o dia. Em uma primeira aproximação, podemos com segurança estabelecer a década de 1980 como um marco no declínio do sistema de ensino. A crise econômica que permeou a “década perdida” drenou recursos da educação pública, justamente numa época em que a população do país crescia com rapidez. Não apenas isso, como foi também nos anos 80 que o processo de êxodo rural em massa das décadas anteriores estava se completando, com milhões de pessoas saindo do campo para se aventurar nas cidades – apenas para se depararem com níveis alarmantes de desemprego. A situação nos anos 90 foi tão ruim quanto, ou até pior, uma vez que o caos urbano já estava instalado e os investimentos na infraestrutura de ensino público estavam anos aquém do que seria necessário para suprir a demanda. A economia também seguiu instável, com inflação elevada e as maiores taxas de juro do mundo consumindo o orçamento governamental.
“Detalhe”: de 1980 a 2000 a população brasileira cresceu em 50 milhões de habitantes (desenvolvi melhor esse panorama num artigo posterior a este, focado no problema dos gastos em educação).

Mas, afinal, o que é uma boa educação?

A base do diagnóstico ruim que fazemos da educação brasileira é um certo senso comum do que seria um sistema de ensino bom. O senso comum, no entanto, é um alicerce de comparação muito frágil. O passo seguinte mais usual seria olharmos para os países que são considerados os mais avançados na educação e, por comparação, pensar o que falta fazer por aqui. Mas isso já foi feito por outras pessoas e podemos fazer aqui no blog noutro momento.

Minha proposta hoje é arriscar um passo além: nesses países onde a educação já é considerada excelente ao redor do mundo, quais as críticas que seus educadores estão propondo ao seu próprio modelo de ensino?

Sim, acredite, pedagogos na Suécia, Inglaterra, Estados Unidos e diversos outros países do mundo estão cada vez mais apontando para o fato de que seus sistemas de ensino atuais estão obsoletos para enfrentar os desafios do século XXI.

AS CRÍTICAS: do ensino como indústria ao ensino como agricultura

a) O ensino como uma indústria

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O formato básico do sistema de ensino que temos nos dias de hoje – salas de mais ou menos 35 alunos, com um professor expondo sobre um único assunto pré-preparado durante uma hora ou mais enquanto os alunos apenas escutam – é uma criação muito antiga. Foi pensado em meados do século XIX, em países como Inglaterra, Alemanha, França e Estados Unidos. Toda a proposta do sistema foi pensada nos termos daquela época: dar as bases mínimas de alfabetização para habilitar uma pessoa ao trabalho com as máquinas da revolução industrial, incutir a disciplina necessária ao trabalho, estabelecer uma história geral da nação na memória de todos os habitantes de seu território e, por fim, permitir alguma base para o desenvolvimento da ciência.

Em outras palavras, no agregado a engenharia pedagógica desse sistema visiva a transformação em massa, em escala industrial, de camponeses e ex-camponeses dispersos e insubordinados em uma força de trabalho fabril, obediente, disciplinada e fiel à nação. Esses eram os problemas que se apresentavam naquela época, e o sistema foi forjado de acordo.

Em 1979, captando os ares da nova crise internacional e da insatisfação em um novo tempo, Pink Floyd já denunciava as malezas desse sistema:

b) O ensino como a agricultura?

Agora, para os pedagogos de ponta dos países centrais, esse padrão já deu o que tinha que dar.

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Os motivos para pensarem isso são dos mais variados. No mundo de hoje, onde a maior parte das economias são baseadas no setor de serviços e o desenvolvimento de tecnologias nesse setor, envolvendo de softwares à atividades culturais, já se mostra incompatível com pessoas que pensem umas iguais às outras. Em todos os níveis, a repetição está dando lugar à criatividade.
Não apenas isso, como os grandes desafios do século, como a sustentabilidade ambiental e a eliminação da pobreza e da fome, exigem uma reformulação criativa e radical de todo o modo como a economia está organizada.
E mais ainda: com a internet, boa parte da vastidão do conhecimento humano acumulado está disponível com extrema rapidez para quem tiver um computador. Hoje mais do que nunca, basta querer aprender para encontrar diversas ferramentas à disposição.

O mundo mudou drasticamente, mas a forma como pensamos o ensino parece ter se congelado no tempo. E ninguém está percebendo isso melhor do que os próprios alunos. As gerações que nasceram na era digital já desenvolveram um raciocínio nos moldes das novas ferramentas. Para elas, ficar uma hora escutando um assunto monótono sem poder participar é um sacrilégio: até se aula fosse um vídeo no youtube poderiam escrever comentários e debater. Por que não na sala de aula? Se em casa podem se informar sobre o que quiserem, por que na sala são forçados a pensar em assuntos que odeiam ou não vêem sentido algum?

Pensando nisso, o educador Ken Robinson propõe a reformulação do modo como pensamos o ensino, da padronização da indústria para os princípios da agricultura. O papel do professor e da escola não deve mais ser impor assuntos pré-fabricados aos alunos como se fossem engrenagens, mas enxergar cada aluno como uma semente. Dotada de um potencial de crescimento próprio e único, o papel do docente não pode ser encarado como “superior ao aluno”: deve simplesmente garantir um solo fértil de crescimento e uma irrigação de conhecimento na medida do necessário. Como no plantio, cada cultura tem um ritmo próprio e natural de crescimento, não fazendo sentido dividi-las segundo sua idade formal, mas quanto à sua maturidade, predisposição e interesse.

A padronização deve abrir espaço para a criação e para o desenvolvimento criativo do potencial de cada um.

Pensando a condição brasileira: de volta ao pó?

Por hora, esse diagnóstico de ponta ainda está em luta com os interesses retrógrados de seus próprios países, mas já aponta a possibilidade de haver, em um futuro não muito distante, uma revolução completa na forma como o ensino público é encarado nos países mais desenvolvidos do mundo.

Enquanto isso, por aqui a briga é para quem sabe talvez, nos próximos 15 ou 20 anos, termos um ensino industrial minimamente funcionante. Digo isso não por pessimismo, mas porque até o momento não vi no debate público sobre a educação um questionamento incisivo sobre o método de ensino e os objetivos pedagógicos do sistema de ensino como tal. Não que ele não exista: afinal de contas, Paulo Freire, pedagogo reverenciado mundo afora, era brasileiro e em grupos progressistas é a literatura básica para pensar o futuro. Do ponto de vista nacional, contudo, o fato dele ser a base do ensino no Chile e infelizmente desconsiderado de importantes faculdades de pedagogia do Brasil fala por si só.

Embora tenha situado o declínio da educação no Brasil a partir de 1980, a bem da verdade vale notar que as modernizações necessárias no sistema nunca foram feitas pra valer. A proposta de reforma de ensino escrita pelo republicano Rui Barbosa em 1883 (que já havia citado em artigo anterior), tendo em vista a formação do cidadão republicano em um Brasil ainda imperial, pode ser lida com uma contemporaneidade assustadora. Em várias passagens as críticas do autor continuam pertinentes, e vê-se que a sua proposta – paradoxalmente apoiada pelo imperador mas derrubada na época pelo congresso – foi derrotada também intelectual e politicamente durante os 130 anos seguintes que nos separam.

Devemos atentar que o mundo nunca esperou o Brasil para caminhar, e caso países já muito mais avançados que nós em educação consigam realizar a passagem para o ensino criativo e humano, a desigualdade entre os países em termos mundiais será aprofundada ainda mais.

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Logo, diante das mudanças que o futuro pode reservar, termino urgindo aos conhecidos e desconhecidos que pretendam atuar no ensino no Brasil que dediquem atenção especial para o método pedagógico usado em sala de aula, e visualizem a necessidade de atuarmos ativamente no debate público nacional apontando suas deficiências e em que sentido devem caminhar as mudanças do ensino no país em geral. O desafio que se coloca é o de avançar no ímpeto da necessidade de reformar o ensino para revolucioná-lo de uma vez.

Do contrário, se continuarmos na lógica brasileira de conciliar o arcaico com o moderno, teremos esses novos conhecimentos aplicados em escolas privadas caríssimas enquanto o sistema de público de ensino fica largado à sua própria sorte. Nós, que já produzimos tamanhas desigualdades, devemos agir hoje sob a pena de ampliá-las ainda mais no futuro. E isso não pode acontecer.


Algumas referências rápidas sobre como a pedagogia vem sendo pensado no exterior: (infelizmente a maior parte está em inglês e não tive tempo de compilar todas – em breve adicionarei mais links à lista)

Alguns vídeos de Ken Robinson: Como as escolas destroem a criatividade | A Revolução na Educação

RSA: Mudando os paradigmas da educação

Sobre o sistema de ensino finlandês:
26 Curiosidades | Vídeo 1 | Vídeo 2 | Vídeo 3

Tenho 27 anos, possuo Mestrado e Graduação em Economia e sou doutorando em Economia pela Unicamp. Sou professor na Especialização em Direito e Economia (Law & Economics), também na Unicamp. Meu principal objeto de pesquisa é a relação entre Economia e Violência, o qual analiso sob diferentes abordagens. Adicione-me no Academia.Edu e no Researchgate para acompanhar meus trabalhos acadêmicos. Na página Publicações aqui do site estão listados meus trabalhos conclusos e em andamento.

9 Responses to “A Educação Brasileira do Pó ao Pó”

  1. Thiago Melo

    Concordo com você. Nós já somos muito diferentes de nossos pais.
    Tenho certeza de que você já conheceu pessoas bem inteligentes que tinham dificuldade em utilizar o controle remoto da tv.
    Nós (das década de 80/90, já velhos) somos capazes de se virar com qualquer controle com duzentos botões de uma tv de led mais o controle da tv a cabo e o do xbox.
    Acho que isso tem a ver com o caminho que a sociedade global segue. Não só para tecnologias digitais (que por sorte alguns de nós acabamos tendo acesso), mas para todo um monte de outras coisas que nos passa desapercebido porque não somos capazes de “cruzar os dados” corretamente já que não nos foi ensinado na escola como lidar com isso.
    Então, se esse modelo de ensino já estava atrasado para eles (nossos pais), imagine para nós e avalie para nossos filhos.

    A gente sempre escuta aquela ladainha de que “o governo não quer uma população inteligente e mimimi”, mas eu acho que não é só isso. Acho que vai além, a Finlândia (pelos links que você postou) tem uma população de 5 milhões de habitantes e 600 mil estudantes. Só a cidade de São Paulo tem 11 milhões e mais de 3 milhões de estudantes. Esse modelo da Finlândia não parece escalável, não para essa realidade, acho que para a coisa funcionar aqui, precisamos ir muito além. Isso tudo é muito desanimador, pensar que para a coisa funcionar aqui precisamos dar passos que vão além daqueles que foram dados por políticos (ou não sei mais que toma essas decisões) finlandeses.

  2. Alexandre Nagado

    Tenho duas filhas e essas questões sobre educação sempre me preocupam. Andei lendo sobre o construtivismo, que possui muitos defensores fervorosos. Mas pelo pouco que sei, me parece um tanto utópico em sua proposta de pensamento. Acredito que funcione melhor em países com sociedades mais niveladas economicamente, mas ao menos é uma forma de fomentar o pensamento crítico e autônomo. Isso é o que mais falta hoje em dia

    Há uma outra questão, que tem a ver com a cultura individualista e a superproteção vigentes hoje: No Japão, em muitas escolas alunos são levados a varrer salas de aula e áreas comuns das escolas como forma de incentivar o zelo pelo ambiente que frequenta, aumentar a responsabilidade e a cidadania. Tais práticas, quando tentadas em colégios particulares daqui, levantam brigas violentas, com mães gritando coisas como: “Eu pago essa merda e não quero que façam minha filha de empregada!” Ou seja, nada funcionará na escola se a criança não for preparada para a vida pelos pais, em geral protetores em excesso e egoístas. Eu me preocupo com essas questões, e procuramos nadar contra a correnteza. Quando minha filha de 5 anos chega em casa cantando o Show das Poderosas e dizendo que foi a tia da escola que ensinou, fico realmente preocupado com valores.

    Mas falta interesse na sociedade em discutir mais esse tipo de assunto.

    Abraço!

  3. Daniel Silva

    Parabéns pelo texto, Thomas, muito bem escrito e bem lembrado o caráter industrial e agricultural que costumam dar à educação, sendo este último uma prerrogativa espalhada em meios de comunicação pelo Ken Robinson.

    Uma ressalva que faço: a educação já nos anos 1970 apresentou uma participação cada vez mais diminuta do orçamento nacional, sinalizando a falta de preocupação dos governantes militares antes mesmo da década de 1980. Há que se considerar um dos períodos de maior urbanização e inchaço das cidades, sem querer excluir a educação na zona rural, que sempre foi totalmente esquecida.

    Aproveitando o tema de educação de moldes agriculturais, esse modelo me parece praticado e com certo avanço nas principais instituições de ensino superior do Brasil: parece mais um processo de seleção natural feito por ranqueamentos e produtividade, como bem ressaltado na educação industrial. Pode-se verificar isso na porcentagem de desistências do curso do PROFIS, por exemplo, na Unicamp: um curso que teria como base a inclusão educacional de jovens vindos de classes baixas e de escolas públicas teve mais de 50% de evasão na sua primeira turma. Mas se observarmos como a educação básica e principalmente média é adotada em algumas escolas e cursinhos particulares, que se dizem de “renome”, trata-se de uma metodologia seletiva no ensino: tais alun@s vão para o vestibular por reproduzirem uma prova. Ou seja, o negócio (sim, no sentido corporativo da palavra) é não ensinar, mas doutrinar.

  4. O problema da Educação no Brasil | Blog Thomas Conti

    […] sequência ao artigo da semana passada que tratei do problema da educação no Brasil do ponto de vista pedagógico, tomei conhecimento […]

  5. gustavo

    oi thomas!
    muito legal seu texto.
    nao sei se vc já viu esse projeto que procura descobrir métodos alternativos de ensino:

    http://educ-acao.com/

    Tem coisas interessantes.

    abço

  6. Financiamento e Perfil das Universidades Estaduais de São Paulo | Blog Thomas Conti

    […] também outros artigos que escrevi sobre o tema Educação: 1. A Educação Brasileira do Pó ao Pó 2. O Problema dos Gastos em Educação no […]

  7. Wilson

    Parabéns pelo texto, mas infelizmente, enquanto os pais estiverem mais preocupados com a qualidade da merenda, se o governo dará uniforme e materiais (de segunda linha e super faturados… diga-se de passagem) ao invés de estarem preocupados com a educação, continuaremos com essas mazelas.
    Escolas viraram depósitos de crianças para pais poderem trabalharem e politicos vender promessas durante as eleições.

  8. Yuri

    Muito interessante seu texto e seu blog!
    Como futuro professor, uma das coisas que penso em fazer é priorizar o papel de “motivador”, ou seja, tentar mostrar aos alunos a importância dos assuntos a serem estudados e o que há de interessante nesses temas. Como você já disse, hoje em dia qualquer um com um computador e interesse pode aprender qualquer coisa pois a informação está altamente disponível. O difícil, e mais importante, na minha opinião, é despertar esse interesse nos alunos. A partir daí tudo se encaminha quase automaticamente.

  9. Les Walsh

    You create a straw man, an industrialised education and then proceed to knock it down. Most teachers are creative in their approach to teaching and the syllabuses are often widely leftist and popular. The problem is much deeper, how do you get the mass of students to learn when families provde little stimulation or a culture which values learning.However get top heavy educational bureaucracy off their backs and provide more backing for teacher decision making in the classroom and you go some way to improving the statistics. What kind of revolution do you want to immplant? It has to be based on real measurable results. How to get kids to want to be readers, writers and calculators, achieve this and they´ll do the creative part.

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